O poeta descobre-se no sebo:
O poeta, ansioso, silencioso, vaidoso
como sempre,
caminha no centro da cidade.
Em busca de si mesmo, considera o poeta,
em busca de mim
e também do povo
que tanto precisa de mim.
Encontra o sebo:
no mesmo lugar
o sebo de sempre
no mesmo lugar.
O sebo que liquida livros de poesia
como sempre,
como sempre anuncia o cartaz
escrito a pincel atômico
que a luz consome.
Quer dizer: o sebo liquida duplamente
a poesia,
pensa o poeta,
sem revolta
nem meta.
O poeta abre caminho entre os títulos.
Polvo de curiosidade.
Mil dedos
entre mil páginas.
E o poeta,herdeiro dos deuses,
hierático, enigmático como sempre
mas de suor frio na testa,
entre tantos livros empilhados
pilhou-se no flagrante
folheando o próprio livro.
Leu comovido a dedicatória.
O que sobra de um tempo feliz, pensa.
Em íntima dedicatória, amiga, íntegra entrega:
ofereço essas palavras
para que a ponte da amizade
cresça perfeita em nós
seres humanos.
O poeta deixa o sebo
o sente o ruidoso bafo da vida.
E neste instante
começa a escrever
o próprio epitáfio.
(Lindolf Bell)
Este poema foi retirado de um livro que adquiri em um sebo: "O Código das Águas", de Lindolf Bell. Esse livro traz na contracapa uma dedicatória, autografada por Lindolf a uma tal "Marly". A sensação que tive ao lê-lo foi a de ter me tornado um espelho, que aponta para outro. A história dentro da história, ou mais, parece ter sido escrito para o dia em que eu fosse lê-lo. Poético e profético!
Lindolf, os livros de poesia vão parar nos sebos. Mas se isso te consola, onde quer que estejas "poetizando", e certamente num lugar onde não há sebos, eles - os livros de poesia, de lá são resgatados por aspirantes a poetas!
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