Afinal, de quem é a culpa?
Um jornal de circulação estadual de hoje, 18 de novembro de 2011 traz como manchete a seguinte frase: “Acidentes esgotam hospitais”. E como não poderia deixar de ser, os tais acidentes aos quais o jornal se refere, tratados na matéria como uma epidemia, são apenas aqueles envolvendo motociclistas.
A forma apelativa como esse tema vem sendo tratado chega a ser irritante. Existe sim, uma constatação, existem estatísticas que comprovam que a coisa é realmente alarmante, mas as matérias sempre colocam o motociclista como um irresponsável que escolheu brincar de roleta russa no meio do trânsito e está onerando os cofres públicos.
Raramente se faz uma análise séria e equilibrada do ponto de vista de quem escolheu as duas rodas como forma de garantir seu sustento, de conseguir chegar no horário no trabalho, ou simplesmente de tentar relaxar da agonia do dia-a-dia.
Para começo de conversa, esses mesmíssimos meios de comunicação, são os que frisam nas suas manchetes “Motoqueiro mata”, “Motoqueiro atropela”, “Motoqueiro assalta”. O medo de “motoqueiro” já chegou a tal ponto, que algumas vezes parei de moto na frente de algumas casas, até de gente conhecida, e as pessoas me diziam com toda sinceridade: “desculpe, não reconheci você e fiquei com medo de te atender porque estava de moto”. E olha que meu porte nem é dos maiores.
Para ajudar, sempre tem idiotas sobre duas rodas para sair por aí arrancando retrovisores propositadamente, surgindo do nada, transitando por cima das calçadas, para ajudar a opinião pública a se voltar simplesmente contra TODOS aqueles que andam de moto.
O reflexo disso no trânsito é claro: pode atropelar os motociclistas, afinal é tudo marginal mesmo!
Falo pela percepção de alguém que estudou o código de trânsito, tenta obedecer as leis, adota uma postura defensiva na hora de pilotar e tenta praticar a gentileza em meio a um mar de ignorâncias e agressividade.
Vamos a alguns exemplos: Se estou transitando por uma rodovia duplicada, sempre piloto na faixa mais à direita, mas tenho o direito de ultrapassar alguém que esteja um pouco mais devagar que eu.
Minha intenção é apenas passar o sujeito e voltar para a direita. Pois é só tirar para a esquerda, que surge do nada, a milhão por hora um carro (que não estava no retrovisor quando resolvi ultrapassar, ou seja em velocidade acima do permitido), cola o carro na traseira da moto, fica dando sinal de luz e dando chilique. E olhe que se tiro para ultrapassar, não faço isso a meros 80 por hora, pois não achei minha vida no lixo...
Uma pessoa como essa está disposta a matar ou derrubar o motociclista, pois se este não tiver um mínimo de habilidade, se se assustar, se deixar a velocidade cair um mínimo que seja, está morto. Ainda o obriga a fazer a manobra de retorno em alta velocidade.
Participei semana passada de um encontro, onde ouvi relatos do pessoal que se dirigiu para lá em comboio, dizendo que simplesmente os carros se metiam no meio das motos que viajavam juntas e cada um que se ajeite onde der, ou ficam forçando, empurrando, tocando em cima, porque parece que quem está de moto não tem direito ao seu lugar ao sol, ou à pista. Na hora de dar um passeio com eles, constatei que era a mais pura verdade.
Em muitos dos acidentes que envolvem motociclistas, simplesmente não se para para prestar socorro. A sensação que isso passa é de que para o motorista, atropelar um motociclista ou um cachorro dá no mesmo, como se inclusive o cachorro não fosse digno da prestação de socorro.
“Em cima de uma moto está um marginal”, isso é o que prega o senso comum. Mas em cima de uma moto pode estar o pai ou a mãe de família, o trabalhador, o amigo, alguém que pode fazer muita falta a esse mundo, e também o marginal, que não cabe ao motorista julgar e condenar, e sim à justiça (que não funciona, mas é a ela).
Um amigo meu foi fechado de moto e caiu há algum tempo atrás. Ele me relatou que ao invés de alguém parar para socorre-lo, começaram a gritar das janelas dos carros para tirar a moto do caminho porque estava atrapalhando!
Faz-se urgente uma sensibilização nesse sentido, enxergam-se as máquinas que fecharam, que tomaram as fechadas, mas não se enxerga mais o ser humano responsável pela condução. Pior, não somos mais capazes de compreender que aquele “barbeiro idiota”, pode até ser um bom condutor num mau dia ou num mau momento...
Não quero com meu texto isentar de toda a culpa os motociclistas e jogar a culpa para cima dos motoristas, meu olhar vai além da intenção de ficar apontando culpados no trânsito.
O que parece que ninguém quer enxergar é que, se algo tem que ser feito com relação à epidemia de mortes de motociclistas, não é sensacionalismo barato e sim uma campanha de conscientização de motociclistas e motoristas, além de pedestres, ciclistas, etc.
O governo, ao invés de apenas criar leis que beneficiam as auto-escolas na arrecadação de dinheiro sem ensinar um mínimo de educação no trânsito, sem mencionar que as aulas práticas de moto são uma piada (sem graça, diga-se de passagem), deveria promover cursos e palestras de educação no trânsito, de direção e pilotagem defensiva e temas do gênero.
Cito como exemplo a CET de São Paulo que promove cursos presenciais e à distância, sendo que esta segunda modalidade, mesmo estando em outro Estado tive a oportunidade de fazer e receber certificado.
Outra coisa, infelizmente não estamos no Tibete, não somos um país de monges e por mais que sejamos capazes de ser educados e pacientes, a infra-estrutura de trânsito de algumas cidades é capaz de levar o Dalai Lama às raias da loucura.
Obras são inevitáveis, mas a corrupção e a burocracia transformam as mesmas em intermináveis. Quando chegam a ficar prontas já estão desgastadas e obsoletas.
Florianópolis tem uma gama de alternativas para transporte e apresenta um projetinho bilionário de colocar mais uma ponte, num território que tem limitação geográfica, que não tem para onde socar mais gente e carro, para, como se diz, apenas mudar a fila de lugar.
Não por menos que, certa feita estando em uma dessas filas que nunca andam, deixei uma pessoa entrar na minha frente em um entroncamento, estando de moto, e a pessoa que estava atrás de mim teve tamanho ataque de fúria que achei que seria atropelada, mas fui xingada de tudo o que se possa imaginar. E a fila simplesmente não andava! Sai todo mundo louco, se xingando, se atropelando, se matando, e claro, quem leva a pior? Quem está mais exposto – o motociclista.
As leis de trânsito são outra brincadeira. Cada vez mais se enrijece a lei, mas nunca se as faz cumprir. Antes eram tantos mg de álcool para poder dirigir, agora nenhum, mas de que adianta, se bêbados continuam matando e saindo impunes e com permissão para dirigir? E, sinceramente, sei que isso é tema para outro texto, mas cadeia onde tem traficante, assassino, estuprador e por aí vai, não é lugar para criminoso de trânsito. Não defendo penas brandas, mas rígidas porém alternativas e direcionadas, além da proibição temporária ou mesmo definitiva dependendo do caso do direito de dirigir.
Para não me estender em mais delongas, vejo a chacina do trânsito, com seus carros e suas motos, como uma mistura de péssima infra-estrutura de trânsito com falta de educação em todos os sentidos dos condutores, condições adversas de condução devido ao estresse, imperícia, falta de uma cultura de manutenção preventiva dos veículos (anda-se até quebrar), além de outros fatores.
Enquanto a mídia sensacionalista reduz a chacina do trânsito às facilidades de financiamento e à culpa dos motociclistas, que “quando não morrem comem o dinheiro público da saúde”, e as pessoas acreditam piamente nessa balela e os governantes continuam sentados em suas cadeiras, rindo da nossa desgraça.
Precisamos parar de ficar protestando um contra o outro nas estradas e unirmos os protestos em direção aos verdadeiros culpados de tantos desastres.
Adriana Bunn, 18/11/2011.
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