A new wave que assola o Brasil em nada lembra a bossanova. Tem até um nome imponente, chama-se “sertanejo universitário”.
Gostaria realmente de saber em que vestibular o sertanejo passou. No da Federal não foi, nem no da Estadual. Pela prova do ENEM também é bem difícil de acreditar que tenha sido. E não me venham dizer que é uma questão de preconceito com a música do interior, porque não é.
O sertanejo universitário que vemos aí equipara-se ao filhinho-do-papai que pode estudar mas não quis, e agora para ser universitário tem que pagar para estudar numa instituição de caráter duvidoso, se bobear nem reconhecida pelo MEC, ou pior, comprou a prova para entrar numa universidade pública.
Engraçado que o sertanejo “analfabeto” traz uma profundidade nas letras, bem escritas, simples, com boas rimas. Esse sertanejo deve ter freqüentado até a terceira ou quarta série, o suficiente para colocar as letras no papel e emocionar platéias, para nos fazer voltar à infância. Fazendas, bois, patrões, coronéis, peões, cavalos, pasto... sabiam descrever seu cotidiano como ninguém.
Agora vem o “sertanejo universitário” com esse ar boçal, com dois carinhas cheios de gel no cabelo e uma calça de couro dividindo o “pacote” ao meio, rebolando tipo minhoca no asfalto quente, cantando com voz de gato com rabo trancado na porta (ok, pelo menos essa moda aí da voz esganiçada está passando, tenho que reconhecer, as novas duplas tem boa voz, mas não são sertanejas – e se são é porque estão ganhando dinheiro com velhas composições).
Engraçado também é o público, que outrora torcia o nariz para esse tipo de música, até ela entrar para a universidade. Agora é possível ver jovens de todas as tribos urbanas em barzinhos da moda pedindo Bruno e Marrone, Victor e Léo e outras duplas do gênero. Assim tipo o cara pobre e feio que quando ganha na mega-sena se enche de amigos de uma hora para outra.
A dupla “sertanurbana” Victor e Léo é um bom exemplo de quem tenta descrever o cotidiano do interior em suas letras e enfia o pé na jaca legal. Se a música tiver um arranjinho dançante e palavras que rimem no final, não interessa muito o que vai no meio. Segue aí uma análise bem humorada (ou mal-humorada para quem gosta da coisa) da música vida boa:
VIDA BOA
Moro num lugar
Numa casinha inocente do sertão
(Será que é inocente mesmo? Alguém puxou a ficha corrida dela? Ou será que houve um pequeno probleminha na hora de escolher um adjetivo para a pobre casinha...)
De fogo baixo aceso no fogão
Fogão à lenha ai ai
(Quero comprar um fogão à lenha desses, com fogo baixo, fogo alto... de preferência que tenha timer e seja autolimpante, ai ai)
Tenho tudo aqui
Umas vaquinha leiteira, um burro bão
(O burro bão deu pra perceber que tem)
Uma baixada, ribeira e um violão
(Ainda estou tentando entender o agrupamento: vaca + burro, ok. Agora formas de relevo, baixada + ribeira com violão, é só pra fechar rima mesmo. Podia botar “uma baixada, uma ribeira e um voçorocão”).
E umas galinhas ai ai
Tenho no quintal
Uns pés de fruta e de flor
(Entendo... ta bom essa passa. Pode ser de espinho ou de verdura também)
E no meu peito por amor
Plantei alguém, plantei alguém
(Plantei alguém??? Chama a polícia! O cara enterrou alguém no quintal!!!)
Que vida boa ou ou ou
Que vida boa
Sapo caiu na lagoa
(Sente a profundidade da rima! Boa para você, apesar do sapo viver na lagoa, neste caso ele CAIU na lagoa. Provavelmente se estabacou todo. É o mesmo que você levar um tombo dentro de sua própria casa).
Sou eu no caminho do meu sertão (2x)
(Isso equivale a um “é nóis na fita, mano!”, só que no sertão)
(refrão)
Vez e outra vou
Na venda do vilarejo pra comprar
Sal grosso, cravo e outras coisas que fartá
(Isso é bom, você pega o cravo, passa no sal grosso e coloca na chapa do fogão a lenha, em fogo baixo. Fica óóóóóóóóó)
Marvada pinga ai ai
(Essa não falta né? Aliás, me parece que anda sobrando na hora de compor)
Pego meu burrão
(Ta , eu sei o que é um burrão, mas diante do até então exposto não dá pra não rir, acaba virando uma palavra de duplo sentido)
Faço na estrada poeira levantar
Qualquer tristeza que for não vai passar
Do mata-burro ai ai
(Só a tristeza não vai passar do mata-burro? Ou mais alguém vai prender os cascos junto com a tristeza?)
Galopando vou
(Bem que eu desconfiava, viu? Falei isso até agora ahauhauahuah)
Depois da curva tem alguém
Que chamo sempre de meu bem
(É a mula-sem-cabeça!)
A me esperar, a me esperar
2 comentários:
Bah Drika, ri pacas com seus comentários junto a música. Desde o dia que encontrei vcs na FAED não me descontraia tanto. Fora a descontração, falando do tema agora, concordo, em genero, número e grau...hehe. Beijos Flor.
Uhuuuuu! Falou tudo, cara, o que tem de cabecinha oca se entregando total ao "sertanário universinojo" se achando o último brigadeiro da festinha... ix, deixa quieto. Saudades,
Bjssss
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