Leio muitos textos de mulheres pelas quais eu sinto muita admiração, relatando sua luta diária para se equilibrar entre as obrigações laborais, as domésticas, as estéticas e as cosméticas, dizendo como conseguem realizar tal façanha. Também vez por outra leio textos de mulheres pelas quais não sinto a menoooooooor admiração, falando apenas de suas lutas estéticas, cosméticas e consumistas. É bom ler isso também para me sentir uma pessoa de algum conteúdo ao menos.
O fato é que certas coisas me parecem bem alienígenas dentro do universo feminino porque só agora depois dos 35 é que resolvi dar ouvidos à minha mãe: -“Minha filha, quando é que você vai criar jeito de mocinha?”.
Nunca liguei pra isso, pra mim é algo extremamente chato ficar passando cremes, loções, filtros solares e andando na esteira. Fora as coisas que tenho medo como limpeza de pele, arrancar sobrancelhas e deixar alguém se aproximar do meu pé com um alicate na mão.
O fato é que, como dizia Cazuza, o tempo não para. “O tempo ruge e a Sapucaí é grande”, e a Lei da Gravidade é a única que me lembro ser impossível de burlar. Chegaram os 35, os 36 e os desastres que não tem remédio mas tem remendo.
O uso de filtro solar se tornou obrigatório, bem como de certos produtos antiidade. Os cabelos também precisam andar um pouco mais alinhados sob pena de parecer uma bruxa. Nem estou mencionando do pescoço pra baixo...aí a parada é “nervosa”.
É claro que não consigo adquirir (nem pagando) disciplina suficiente para usar o tal do filtro, e os tais cremes, e é justamente sobre a complicação que é usar essas coisas que quero falar agora.
O hidratante do rosto tem do dia e da noite. Tem que limpar, tonificar e hidratar. Aí você acorda as seis e meia da manhã, olha pra dois potes iguais, pula a limpeza e a tonificação e taca na cara O CREME DA NOITE! Dá um desespero de pensar se aquele treco não tem ácido demais para ficar agindo durante a noite e o que pode acontecer se sair no sol com o creme errado. Como não dá tempo de tirar, você faz o sinal da cruz e sai na rua, rezando pra não ter muito sol pra não chegar de noite em casa com cara de fundo de panela.
De noite, ao chegar em casa, depois do trabalho, da faculdade, da janta, do cochilo e do banho, você faz o processo inverso: taca creme do dia no rosto. E dorme com filtro solar fator 15 que vai proteger o rosto, no máximo da poeira que está despencando do teto porque você não tem tempo para limpar.
A sacola da praia é o seguinte também... filtro pro rosto, pro corpo, pro cabelo, pros “beiço” (em homenagem aos amigos lageanos). No último verão, tive que voltar pro chuveiro, e ainda bem que estava em casa, depois de passar protetor de cabelo no corpo.
Hoje de manhã de novo. Optei por um corte chanel, já que o cabelo comprido envelhece que é o demonho e cabelo curto não quero nunca mais. De preguiça, amassei o cabelo com um ativador de cachos (tenho cabelos lisos, digo pseudolisos). Esse produto foi a descoberta do século. O cabelo tá mal arrumado? Meio sujo? Não deu tempo de lavar, ou deu tempo de lavar mas não de secar? Ativador de cachos nele!
Bem que eu percebi que ontem não ficou legal, e hoje o troço ficou pior ainda. Passei o tal do ativador e o cabelo ficou medonho. Perguntaram no serviço “o que aconteceu com seu cabelo?”. Descobri quando cheguei em casa. Estou há dois dias passando protetor térmico no cabelo achando que é ativador de cacho e ninguém me avisa.
Os fabricantes de cosméticos também não ajudam... as embalagens são todas iguais. A do protetor com spray, a do protetor de cabelo, a do ativador de cachos, a do protetor térmico... é de deixar a gente maluca.
Assim como aquelas religiões onde o autoflagelo é praticado, também tenho procurado fazer a sobrancelha uma vez por mês, mas juro, faria uma tatoo por dia e não arrancaria um pelo do rosto. Que tortura dos infernos! Por quê, meu Deus, por quê??? Por que não volta a moda Malu Mader?
Fazer o pé, só no verão, sinto muito. Se meu marido fosse podólatra eu estaria frita mesmo, porque se tem algo medonho na “minha pessoa” é o pé, e não tem esmaltinho que disfarce isso. Além do que estou sempre de bota, tênis, coturno...no máximo um scarpin (no caso de casamentos, formaturas e velórios, somente e dependendo do humor), ou seja. Pelo menos no inverno consigo me livrar da agonia de ter alguém furungando no meu pé.
Limpeza de pele... ah! Ah, que delicia aqueles creminhos e massagens no rosto, até que parece que um ser se apodera da esteticista e ela agarra seu nariz e começa a apertar. Você cerra o punho e soca a maca, só que nesse caso não tem nenhum juiz pra tirar o agressor de cima de você, e você ainda paga por isso.
No momento estou tentando enganar a esteira. Sempre fui ridiculamente magra. Hoje sou magra, mas magro também fica mole, e magro mole é uma coisa estranha, ainda mais magro mole com uma barriguinha querendo nascer.
Para enganar a academia já fiz natação, karatê, futsal, capoeira...não tenho mais fôlego para a capoeira regional, então estou desesperadamente a procura de um lugar para treinar angola, porque pensar em voltar pra um lugar onde os caras fazem “muque” na frente do espelho (com direito a careta), depois dão uma balançada no rabinho e mulheres correm na esteira falando no celular, me dá voltas no estômago. O mais triste é que estou sentindo que vai ser isso ou a barriga mole rindo pra mim.
O bom é que quando leio os textos das mulheres que não admiro, me sinto livre, apesar de todas as minhas tentativas malsucedidas de lutar contra o tempo. Deixo de ir à academia para andar de moto por aí ou simplesmente fazer o que gosto. Quanto àquelas que admiro, que bom que elas existem, e me fazem ver que sou tão imperfeita e feliz quanto cada uma delas.
2 comentários:
Íax taum bem aí dixcambassi... lembra disso? Bjssss
Amiga....não preciso repetir o quanto eu te admiro e o quanto vc significa pra mim. Seu texto vem pra confirmar a idéia que tenho de que faço parte de uma tribo de mulheres diferentes. E que sou obrigada somente a respeitar, enfim cada um tem direito de ir e vir da forma que bem desejar, mas não compartilhar o meu dia-a-dia com pessoas que não admiro ou que não me acrescentam. Quer ver quando sou obrigada a esperar por um corte de cabelo no salão, minha vontade é sair gritando com aquele bando de seres que só se preocupam com seu próprio umbigo, com as suas unhas, ou seu cabelo, o bronzeamento artificial do momento... Não vejo problema em se cuidar, o problema é que tem coisas que chegam a extremos inimagináveis, a ponto de não se falar de outra coisa a não ser isso: a cor do esmalte, a roupa da grife tal, a bolsa, o novo perfume lançado... Muitas vezes ouço comentários de homens que convivem comigo, no trabalho ou na faculdade, sobre as meninas “bem cuidadas”, e por vezes cheguei a pensar porque sou assim, meio esculhambada, na maioria das vezes com a cara lavada (a não ser quando sou obrigada a me fantasiar), passando o dia inteiro de pijama - porque acho a roupa mais confortável do mundo – e chego a uma conclusão simples, no entanto altamente compensadora.... que eu, você e o restante da tribo somos diferentes porque viemos pra fazer a diferença . É o que eu vi quando te conheci, e que continuo vendo até hoje, uma mulher que realmente tem algo diferente para mostrar, com o poder de abrir os olhos das pessoas que tem interesse de ver o mundo de uma outra forma. E falta de comentários sobre a forma como eu penso ou como faço as coisas, ou da minha garra e luta pra me sustentar, trabalhando muitas vezes até 12 horas por dia, só me faz pensar que mesmo que nunca nada disso seja reconhecido, ao contrário os comentários sempre serão sobre a minha cara lavada, ou meu sapatinho baixo, ou meu cabelo mau penteado, as minhas estrias e celulites quando eu for a praia ou as minhas varizes (herança de família) e minhas unhas quebradas ou roídas, eu sei que para o mundo eu fiz alguma diferença.... Como diz o ditado - O pequeno passo de um homem pode ser um grande passo para a humanidade... e sermos “nós mesmas” não tem preço, assim como não tem preço a alegria de dividir um pouco da minha existência com pessoas como você.
Beijos nega.
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