Quem não lembra do tempo de escola, que quando voltávamos em março, das férias, tínhamos que escrever a fatídica redação: “minhas férias”?
As férias eram legais, mas sempre iguais, praia, sorvete, cachoeira e pelo menos por uma semana éramos despachados para o sítio de alguma tia para encher a paciência de terneiros, ovelhas, e claro, das tias também.
São lembranças doces e ternas, de coisas que nos põem em comunhão com a natureza, com a família, com coisas demasiado boas, mas que um dia, pelo desenrolar da vida cotidiana, vão acabando, até que a própria lembrança também nos fica distante.
Chega, assim, o dia em que não precisamos mais escrever a fatídica redação e se ainda fôssemos obrigados a escrever seria algo como: “Peguei o dinheiro das férias para pagar dívidas, e, não tendo sobrado muito, vi alguns filmes no DVD comendo pipoca”. Ou até dá para ir a alguma praia desde que se tenha (uhuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!) muita força de vontade para encarar três ônibus e dois terminais além das filas.
Não vou dizer que é ruim pegar vinte ou trinta dias para simplesmente dormir até as duas da tarde todos os dias e virar a noite vendo filmes, porque não é. Mas também isso não produz muita adrenalina.
O fato é que as férias deste ano mereceram uma redação, que nem me é mais fatídica de fazer, porque tiveram um gosto muito diferente, tiveram gosto de vida.
Dizem algumas pessoas que anos terminados em 8 são agourentos. Olhe, eu não acreditava nisso até passar pela prova dos 88, 98 e 2008 que foram verdadeiros infernos em vida. E o ano passado foi cruel: fim de uma segunda habilitação na UDESC num curso que já estava me durando seis anos, junto com crises de depressão e síndrome do pânico. O din din das férias do ano passado me serviu para pagar a habilitação de carro e moto, das quais só consegui tirar carteira de moto, porque as crises de pânico não me deixaram tirar carteira para carro. Joguei o dinheiro fora, não aproveitei as férias e ainda me senti a derrota em pessoa.
Como todas as coisas repetitivas nesta vida nos enchem demais a paciência, em 2009 resolvi chutar o balde, com os dois pés. E a primeira coisa que me encheu a paciência foi essa tal de síndrome do pânico. Oras, uma moto zero, uma habilitação para dirigir e eu definhando dentro de casa com medinho de morrer. Morrendo cada dia um pouquinho, sem que me desse conta. Pensei, vai lá...se eu quebrar uma perna estou no lucro, se acontecer o pior, pelo menos estava tentando viver da melhor forma possível.
Decretei que em 2009 ia fazer coisas diferentes, e estou fazendo. Comecei um curso de mecânica de moto no SENAI, estou dando aula num cursinho pré-vestibular de geografia física, sendo que minha monografia foi na área de humanas e por aí segue.
Cansei de rotina. Chega de rotina! E apliquei isso também às minhas férias.
Fiz a lista das coisas que me borrava de medo. Tremia de pensar em atravessar a avenida Beira-mar norte. Passei por ela e fui até o norte da Ilha, mais precisamente na Cachoeira do Bom Jesus. Dei umas bandas para o Sul da Ilha no dia seguinte. Fiz uma mochilinha e resolvi “viajar” de moto até Palmas (Governador Celso Ramos), mas chegando em Biguaçu, vi o maior temporal armado para os lados de lá e voltei, afinal, me reservo ao direito de ainda ter medo de alguma coisa, e para mim moto e chuva não combinam muito não, só se for necessário mesmo e olhe lá.
Para encerrar as férias com chave de ouro, lembrei de um antigo convite do Tio Hiram, para fazer um vôo já que ele é um dos mais novos comandantes do aeroclube de São José. Pensei, lá em cima será o maior dos testes. Se eu tiver medo, terei que agüentá-lo e firme, porque não tem como descer.
A partir daquele lema de infância “nas férias, alugue um tio”, trocamos alguns emails, e no dia 22 de março de 2009, mais precisamente, cheguei de manhã aos hangares do aeroclube.
Depois de me tranqüilizar inspecionando e abastecendo a aeronave na minha frente, me apresentou ao “vovô”, lá conhecido como vovô Paulistinha (CAP-4 PT-ZMP, uma aeronave produzida em 1943), e em seguida entramos e nos dirigimos à pista.
Engraçado que já tinham me falado horrores dessas pequenas aeronaves, que chacoalhavam muito, que na turbulência parecia que iam cair, que pra descer chegava quicando... enfim, já com tudo isso na cabeça nem percebi que já estávamos acima das construções da região.
A primeira lembrança que me veio à cabeça, foi a do livro O Pequeno Príncipe (sim, li, e daí? Já posso ser miss, hahahaha). Saint-Exupéry, muito conhecido no Campeche por “Zé Perri”, atravessava a cordilheira dos Andes em aeronave semelhante e em seus escritos, filosofava: quantas casas lá em baixo, quantas luzes. Em cada uma delas uma famíla, algumas vidas. O que será que cada um deles faz neste exato momento?
O segundo estágio, já no topo do Cambirela nos coloca diante da nossa pequenez. Nos achamos grandes perto de um carro ou uma casa, ou do próximo, mas o que somos perto do “pequeno” Cambirela? A “quantidade de mundo” que dá para ver lá de cima embriaga. A gente esquece que não tem chão em baixo. Até se lembra quando atravessa alguma pequena turbulência, e se agarra às portas ou a qualquer outra coisa, como se fosse adiantar muito, mas o que se vê lá em cima, faz esquecer o resto.
O tempo parece parar. Ao contrário de um vôo comercial, a movimentação da aeronave é lenta, tudo é mais lento, a cabeça viaja a mil. Ainda mais cabeça de geógrafa, que quer fotografar aquela foz de rio ali, aquela erosão acolá, aquela ocupação em área de risco, ai socorro, até a máquina fotográfica se torna lenta demais.
Não sei explicar, se não tivesse voado com esse “olhar geográfico” talvez tivesse sentido mais medo, ou mais tensão, ou tivesse pedido para sair, mas não. Queria morar lá.
O dia estava quente, e pela possibilidade de viajar com a janela aberta, pude sentir o “gosto” das nuvens e constatei: são geladinhas!
Ver as coisas lá do alto também nos reporta à filosofia budista, quando esta diz que nós e “nossa casa” somos uma coisa só, e que o que fazemos ao mundo e ao próximo tem reflexo em nós mesmos. O agrotóxico que o proprietário do sítio que vi às margens do Rio Cubatão utiliza, contamina as águas do rio que nos abastece, que desemboca no mar, contaminando os peixes (e o próprio mar), e essa água e esse peixe logo estarão contaminando ao proprietário do sítio. Nossa pequenez não nos deixa visualizar isso daqui debaixo, e nossa megalomania só nos faz piorar as coisas. Sempre ouvi dizer que nos distanciando um pouco do problema é que conseguimos enxergá-lo melhor. Se as pessoas voassem mais, pensariam mais no planeta em que habitam, tenho certeza!
Foi um presente antecipado de aniversário, e como eu mesma falei ao tio Hiram, um daqueles que a gente não esquece para o resto da vida. Chego mesmo a dizer que ninguém deveria morrer sem antes saber qual é essa sensação. Todo homem uma vez na vida deve se meter a peixe e a passarinho (a tatu também), já que nossa rotina de bichos-preguiça pouca coisa especial nos reserva. Ainda me falta mergulhar, quem sabe não fica para as próximas?
Só tenho mesmo é a agradecer pela oportunidade e dizer que superei mais um medo, metade graças á força de vontade, e outra metade graças à confiança que o comandante inspira em sua tripulação. Valeu, tio!
6 comentários:
Prezada Adriana,
Conheço pessoalmente essa grande figura que é o Cmte. Hiram e sempre me deleito com seus relatos, fotos, filmes e voos. Aliás, tive a oportunidade de receber, em primeira mão, algumas fotos desse voo e o nome que ele atribuiu ao arquivo foi "A Coragem de Adriana". Meus parabéns pela coragem e também pela bela crônica; e, ao Cmte. Hiram, um abraço por auxiliar no seu sucesso.
No final talvez lembre mais Fernão Capelo Gaivota do que o próprio Exupéry.
Abraços,
Luiz Francisco (também aficionado por aviação e por liberdade)
Adriana,
Vi o seu texto no site da Abul. Transcrevo a seguir um comentário que fiz a respeito no fórum daquele site.
Antes, porém, gostaria de parabenizá-la por mais essa forma tão corajosa e, ao mesmo tempo, tão gratificante, de vencer seus medos.
[]'s, Oscar
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Segue então o meu comentário na Abul:
Gostei muito da crônica, principalmente por vir de uma pessoa que teve um contato apenas momentâneo com nossa aviação e, além disso, vencendo uma enorme barreira de cunho pessoal. Trata-se de um texto sensível e muito bem escrito.
Essa experiência só nos mostra o quanto somos privilegiados por Deus por termos tantas oportunidades de desfrutarmos das sensações descritas pela cronista.
Ah, e não poderia deixar de mencionar a referência que ela fez a Saint-Exupèry, um ídolo a quem devo muito da minha paixão pelo vôo. Não só pelo "O Pequeno Príncipe", mas também - e principalmente - por "Terra dos Homens", "Voo Noturno", "Correio Sul", "Piloto de Guerra" e "Carta a Um Refém".
Adriana
Inteligencia,coragem,sensibilidade,humor,delicadeza,curiosidade,coração...gostei de saber que existes!
Adriana,
Sou piloto e ja curti a vista dessa região por cima, espetacular.
Chamou-me a atenção sua descrição romântica, poética, sensível...repensando seu passado apartir das sensações no ato da experiência.
Depressão e medo foram meus companheiros desde minha infância, apesar da coragem de fazer as coisas como aviação por hobby, empresariar desde os 18 (43 atuais), casar duas vezes 4 filhos e etc...esses companheiros atuavam como ondas, as vezes maiores intercalando com alivios, muitas vezes conseguidas com terrapias e vários caminhos e filosofias de vida. E internamente sempre mantive a esperança secreta de que um dia "alguém" arrancaria o peso no peito, geralmente imperseptível aos demais, pois camuflava pelo arrojo corajoso de fazer as coisas.Porém com os ....enta, filhos, ex-esposas, sócios odiosos, pensei que iria perecer. E ai encontrei esse "alguém" que prometeu não só me aliviar, mas curar todas as feridas, eu me entreguei, me arrependi, confessei oque não combinava com sua verdade, ajoelhei-me e disse: eis-me aqui faça a sua vontade. Hoje vivo a maior alegria em todos as áreas de minha vida, pois sabia no meu íntimo que um dia eu iria encontrar esse "alguém" e encontrei. O nome dele é JESUS.
Saudações aéreas, um abração ao Cmte Hiram e que DEUS os abençoe em nome de JESUS.
Odimar Roman- cód anac 117635
Aeroclube de Concórdia-S.C.
odimar.roman@gmail.com
Que bom Adri que você conseguiu voar. Posso te dizer que morria de medo de altura e mesmo assim fui voar de parapente sozinha, fiz curso e tudo e posso te garantir: só que já voou um dia pode entender porque os pásaros cantam...
Natalia
Olá Drika, que belo relato, diverto, bem escrito e gostoso de ler !!! Parabéns...
fiquei contente em saber que vc está também no cursinho pré-vestibular, vc é uma grande educadora/professora!
Tenho saudades, foi muito bom ler seu texto.
Me diverti, achei super legal.
Parabéns e fica aí um abraço... quero ver se leio demais coisas do seu blogge...
Viva o voar.
E como dizia o Santos Dumond (já te disse isso uma vez ehehe), "Tudo visto de cima é mais belo".
Tudo de bom
André
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