O propósito deste blog é falar de geografia e de poesia.
O assunto a que me proponho hoje não é nada poético, mas pode sim, ser geográfico, dependendo do que cada um entende por ser a Geografia.
Se for o que tenho ouvido ultimamente, que a geografia se resumiu à frieza do puro geoprocessamento, então meu assunto não é geográfico.
Por outro lado se ser geógrafo é também ser um instrumento de tentativa de mudança do status quo, se é tentar abrir os olhos de quem nos cerca para a cidadania, então o assunto é geográfico, sim.
O ORKUT E A VENDA DE DIPLOMAS
Vamos combinar, o orkut apesar das dores de cabeça que proporciona, é uma ferramenta legal. No orkut encontrei velhos amigos, organizamos festas com turmas de ginásio, de segundo grau, conheci antepassados em comunidades de família.
Para quem sabe tirar proveito, é uma ferramenta inclusive de negócios, de feed-back. É o mundo à nossa frente, sem limites!
Ah é verdade, esqueci que esse “sem limites” complica um pouco a vida. De um lado temos total liberdade de expressão, o mundo a nosso alcance sem restrições. A música que queremos sem pagar a gravadora (e o artista também), o filme idem. Isso tudo tem muito de revolucionário.
Por outro lado, esses dias eu tranqüilamente lia meus recadinhos quando me deparo com um desses spams prometendo formar pessoas em 6 dias com diploma reconhecido pelo MEC.
Achando meio estranho, entrei no site que prometia tais coisas e me deparei com uma página na internet que comercializava diplomas de ensino fundamental, médio e superior, afirmando que tinham “convênio” com várias instituições e com o próprio MEC. Ainda pior – os diplomas de nível superior estavam em promoção por tempo limitado: mediante o pagamento de R$ 90,00 você poderia se transformar em um advogado, administrador, contador... quem sabe geógrafo!
Tirei print screens do anúncio do orkut, do site, reuni links e enviei tudo ao MEC.
Qual não foi minha surpresa ao receber uma resposta imediata do setor de reclamações de que minha denúncia havia sido encaminhada?
Sim eu sei que estão todos rindo da pobre iludida achando que alguém vai ser punido, que é aliás o que espero. O fato é que algo está mudando. Uma resposta imediata era algo impensável algum tempo atrás, fora que me senti com alguma utilidade social. Se a gente lê e não denuncia, um dia pode acabar se tornando vítima de um desses “profissionais beneficiados” por tais negócios escusos. Denúncia neles!
O ORKUT E A VENDA DE MEDICAMENTOS CONTROLADOS
Outro dia eu lá, olha daqui, olha dali... de repente ao fazer aquela “ronda” pelo orkut do maridão, vejo um anúncio de produtos para emagrecer, entre eles medicamentos controlados como ansiolíticos e antidepressivos (que são ansiolíticos e andidepressivos e não remédios para emagrecer). Com um clique você pode obter fluoxetina ou qualquer outro medicamento do gênero, com uma propaganda anunciando que como são pra ansiedade, tiram a fome, como tiram a fome, emagrecem. Heureca!!!
Seria bom (não no meu caso pq se emagrecer, desapareço) se não vivêssemos no país campeão de utilização de tais medicamentos com propósitos estéticos, ou simplesmente porque, como já li em uma matéria, não temos mais o direito de nos aborrecer. Cara feia no trabalho também dá justa causa, então, antidepressivo pra manter o emprego.
Indignada com o que li, denunciei abuso no próprio site e no dia seguinte recebo resposta do google, dizendo que o conteúdo não fere a política do google. Mandei um e-mail de volta mandando eles reverem a política deles. Eu queria mandar outra coisa, mas aí perderia a razão.
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Ah essa mereceria um livro, mas vale a pena relatar a história.
No mês de abril, não recebi o boleto da prestação do cafofo. Dirigi-me a uma agência da Caixa, munida de paciência e de algumas barras de cereal, pois infelizmente nesse país os hipoglicêmicos ainda não tem prioridade nas filas. Como só posso ir em horário de almoço e você pode levar até uma hora e meia para ser atendido, como aconteceu comigo da ultima vez, aconselho a quem for a levar também travesseiros, colchonetes e revistas.
Fui atendida e recebi a feliz notícia de que a Caixa havia me cobrado valores a mais, e como estava devolvendo o boleto daquele mês estaria zerado e eu não tinha que pagar nada. Poderiam vir outros boletos zerados.
No mês seguinte veio boleto com valor e paguei, no mês subsequente não veio de novo e tive que encarar o terror da fila. Fui informada que não devia nada novamente. No outro mês tive a renovação do FGTS negada porque eu não havia pago a prestação anterior.
- Ain??? Para o mundo que eu quero descer! Minha paciência “dalailâmica” foi pro espaço e num arroubo de descompostura surtei com a atendente, claro, surtei depois de ter explicado toda a minha situação para ela, pacientemente e ela ter dito que “se o sistema assim acusava, eu teria que ir ao banco regularizar a situação”, a situação que o banco criou para mim!!!
Não sei porque, mas sempre depois que eu surto, aí o “sistema” aceita tudo. Quando meu sistema nervoso entra em colapso, o sistema que está me bloqueando me aceita, devo ter um campo magnético fortíssimo, impressionante!
Acreditando ter resolvido tudo, descobri, quando fui assinar a papelada do FGTS que eu não podia pegar o boleto do mês na hora, eu teria que voltar à caixa na semana seguinte.
Como desgraça não vem sozinha, fui ao supermercado, passei as compras no caixa e esqueci que havia pago o cartão de crédito no mesmo dia. O cartão não aprovou minha compra e tive que passar o débito. Tcharammmm!!! Conta zerada, vou pagar o apê com o quê? Só pude pegar o tal boleto duas semanas depois.
Mais uma fila, essa a de uma hora e meia, já estava ali falando sozinha e fazendo gestos repetitivos com uma baba caindo do canto da boca quando chamaram meu número. Devo ter batido palmas e gritado “êêêê”, sei lá, não lembro...
Sei que o atendente me veio com um boleto de dezesseis reais, que eu questionei: Olha é isso mesmo? tem certeza? de onde você tirou isso?
Acho que deixei o rapaz tão confuso que ele foi na gerência e confirmou o valor.
Uns dez dias depois entrei na internet para ver se tudo estava certo e aparece a prestação de julho como não paga (essa que eu fui pegar o boleto e paguei no mesmo dia). Respirei fundo, depois respirei cachorrinho, depois peixinho, depois burrinho, e liguei. Fui informada que a prestação de julho estava em aberto, que eu não tinha pago.
Larguei o telefone e fui direto ao veterinário tomar uma anti-rábica, claro na camisa de força, pois ainda perguntei à atendente se eu podia pegar o boleto e levar direto a ela, afinal o erro era do banco, ao que ouvi: não, a senhora tem que pegar senha e entrar na fila como todo mundo. Não sei o que gritei, não sei o que falei pra ela, lembro que acordei num quarto branco, com uma luz forte nos olhos e um cara de branco acenando e dizendo: - Vem! –Vem! – Vem pra Caixa você também!!!
Depois dessa experiência de quase-morte, lembrei da ouvidoria, ah, santa ouvidoria dum ouvido só!
Peguei o 0800 e liguei. Quando a atendente me perguntou qual o problema, despejei, como se estivesse me consultando com um analista, quando fui cortada por um “senhora!”, “senhoraaaaaaaaa!!!” a senhora só pode registrar uma reclamação por vez, ou do boleto, ou da fila. Me vi obrigada a escolher em dois segundos e optei pelo boleto, afinal ele que me obrigava a ir à fila.
No dia seguinte recebi a ligação de uma gerente da agência na qual está meu contrato, perguntando qual o problema, o qual relatei novamente, e ela me respondeu que eu não deveria ter pago os boletos? Hein? gostei disso, de hoje em diante tudo o que eu tiver que pagar eu não vou pagar com a justificativa de que boletos não devem ser pagos, devem ser só admirados. No caso da caixa fiquei ainda mais estarrecida, afinal quase todo mês eu era forçada a ir à agência e quem me fornecia a folhinha era sempre um funcionário do banco. Ele poderia ter me avisado que era só “pra bonito”.
O resumo da ópera é que hoje, depois de reclamar para a ouvidoria, conquistei o direito de sentar-me à frente de uma gerente, que marcou horário comigo e me desobrigou de ser punida com a permanência na fila pelo crime de tentar fazer as coisas da forma certa, que me levou montes e montes de planilhas para me explicar o que aconteceu e que disse que a situação DEVE se normalizar, mas se não se normalizar, posso novamente recorrer à ela. Sem fila e por telefone, coisa que a caixa não se digna mais a fazer: não atende mais a ninguém por telefone.
Lembrei-me de uma frase que o grande pintor Iberê Camargo citou em uma entrevista como sendo de um amigo seu: “Estamos numa piracema, nadamos contra a corrente, mas veja bem, quem nada a favor da corrente é peixe morto”.
O estresse é grande, o cansaço é grande, a sensação de que nada vai mudar é enorme, mas só mudaremos algo denunciando, reclamando, incomodando. Não agindo como peixes mortos.
2 comentários:
Adri,
Nossa menina!! Fiquei aqui pensando em vc nas filas...
Li tudo o que escrevestes, sobre os boletos e mesmo tu escrevendo de forma irônica.
Consegui imaginar o quanto ficastes furiosa com tudo isso...
Gostei muito da maneira que vc passou a sua mensagem. És muito criativa!!
Beijos
núúuú, filas tenho trauma, pessoas me decepcionam e Banco, ah Bancos são capítulos a parte, acredite, até hj depois de 1,5 ano ainda não transferiram minha conta e olha que não tenho restrições para tal!!! deixei minha conta em SP, onde morava... única saída sem estresse... abraços da KK.
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