O trabalho sempre teve diferentes significados para a humanidade, variando de sacrifício à dádiva. Desde Adam Smith, no século XVIII, o trabalho foi identificado como a razão explicativa para o crescimento das nações. Para além de Smith, Karl Marx no século XIX, ao desvendar o funcionamento do modo capitalista de produção atribuiu ao trabalho e, por conseqüência, ao trabalhador, a razão de existência do próprio capitalismo, na medida em que funcionaria como a fonte do lucro, ao mesmo tempo em que o salário escondia ou legitimava uma relação de exploração.
O fato é que há tempos trabalhar significa, para a maioria da população mundial, ter acesso aos bens materiais para garantir a sua própria reprodução. Trabalho significa produzir bens e serviços e ao mesmo tempo ter acesso a parte deles, em uma sociedade cada vez mais regulada pelo mercado. A sociedade atual ainda se organiza pelo trabalho e não é gratuito o significado das demissões sobre a vida dos indivíduos. Mas a realização do trabalho obedece a regras distintas na medida em que pode ser mais ou menos regulados, o que significa para os trabalhadores serem mais ou menos explorados.
A morte no trabalho como fruto da exploração é anterior ao capitalismo. Não é possível ignorar os registros históricos das mortes na escravidão, resultado das desumanas jornadas de trabalho, inclusive no Brasil há pouco mais de 100 anos. Apesar do tempo, essa situação ainda teima em persistir como se constata em recentes fiscalizações do Ministério do Trabalho, em especial na região norte do país. Apesar do desenvolvimento tecnológico, científico, político, social e organizacional vivemos um tempo em que máquinas e equipamentos são mais protegidos que os trabalhadores que são facilmente substituídos em qualquer setor. Para os prejuízos materiais há o seguro e, para a vida, o lamento e choro. Prova disso é a matança de caminhoneiros em estradas brasileiras. Lembram da tragédia no Oeste Catarinense? De quem é a culpa, do motorista ou da empresa? Houve perda material para a empresa ou o seguro o cobriu?
“Soluções” capitalistas dessa natureza em que até a morte tem valor monetário continuam alimentando as estatísticas de acidentes no trabalho. No Brasil, desde 1970 mais de 503 mil trabalhadores morreram no trabalho. È como se a população atual da cidade de Joinville tivesse desaparecido nesse período. Apenas em 2006 foram registrados (veja bem: apenas registrados, será que todos os casos foram?) 2.717 mortes. No setor elétrico foram 93 mortes. Desde 1999 morreram 603 eletricitários, quase 80% desses em empresas terceirizadas. Quanto vale uma vida para que essa situação continue sendo negligenciada?
É necessário cobrar politicamente mudanças, mas também é necessário agir civil e criminalmente contra os responsáveis. A busca pelo lucro e a adoção de modas intensificadoras da exploração do trabalhador, como a terceirização, não pode continuar negligenciando a vida.
Daniel Passos – Economista do DIEESE
Mário Jorge Maia – Diretor de Saúde do Sinergia
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