terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Poesia e a Alma Feminina:

Arrisco-me a escrever estas linhas não como crítica de literatura, posto meu vago conhecimento acerca de tal assunto, mas como admiradora da obra de uma grande poetisa que, como ninguém, sabe expressar o que vai dentro da alma de uma mulher.

Dizem, no Brasil, que Vinícius de Moraes, o “poetinha”, foi um profundo conhecedor da alma feminina. E foi. A grande diferença é que Vinícius não pensa como mulher, mas é um profundo conhecedor do que elas pensam e do que elas querem, conhecimento provavelmente adquirido no seu “ofício de mulherengo”, mostrado no fantástico documentário sobre sua vida e obra.

O fato é que as mulheres, ou boa parte delas, apesar de se deixarem levar pelo discurso carregado de romance e prática pouco romântica desses experts, sonham para si um amor concreto, mais que idílico, mais que poético.

Balzac, em seu livro “A mulher de trinta anos” retrata tão bem as dores da alma feminina, que realmente faz pensar se não seria ele uma mulher escritora com pseudônimo masculino apenas para conseguir publicar sua obra.

Até hoje porém, não li ninguém que seja um espelho tão claro das venturas e desventuras femininas como Florbela Espanca.

Nascida em Vila Viçosa (Alentejo), em 1894, essa escritora portuguesa publica em 1919 seu primeiro livro: Livro de Mágoas. Entre casamentos desfeitos e uma cruel perseguição por um amor que idealizou e não via se concretizar, morreu em 1930, em Matosinhos, de acordo com especulações, de suicídio.

Essa sede de amor é vista como um ideário de vida, transformado em sonetos, que falam de amor, de vida, de alegrias e desilusões, de desejo de morte.

Alguns consideram sua obra depressiva, sendo que alguns sonetos realmente o são, mas quando se contempla a cristalinidade de seus versos, a sinceridade contundente e a inconformidade com o que está posto, se vê ali mais que depressão e sim, a inquietação de quem está a frente do seu tempo e não se consegue fazer compreeender. Ela quer mais da vida do que ela pode dar: “o meu reino fica para além”.

Quem procurar a beleza da obra de Florbela em seus versos tristes certamente ali não os encontrará, mais que o sentido da visão é necessário o sentido da alma para entendê-la e descobrir onde ela quer chegar.

Florbela vive numa sociedade repressora, muito pior que a contemporânea que ainda reprime atitudes e sentimentos, condena comportamentos e para entender seu raciocínio, é necessário ao menos imaginar pelo que ela deva ter passado: “O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim tenha se aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez...O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!”.

Nossa literatura está recheada de “virgens dos lábios de mel” de deusas inatingíveis, mulheres insensíveis e ingratas, e Florbela vira o jogo mostrando que o homem também pode ser um “objeto de poesia” ou para melhorar a expressão antes de ser rechaçada, um “muso”- por que não – com as mesmas atribuições de beleza, ternura, insensibilidade e ingratidão, que só uma mulher saberia descrever. Ela ousou mostrar isso em uma sociedade machista, onde somente ao homem era permitido ter desejos amorosos explícitos.

Uma mulher que escreve pelas mulheres. Vale a pena ler.

Uma dica: a editora L&PM Pocket tem dois livros na coleção de bolso, que custam em torno de R$ 10,00. No livro 1, as obras “Trocando olhares”, “O livro d’ele” e o “Livro das Mágoas”. No livro 2, as obras “Livro de Sóror Saudade”, “Charneca em Flor” e “Reliquiae”. Se vale a indicação, gostei mais do segundo.

No site Jornal de Poesia, tem também algumas obras dela: http://www.revista.agulha.nom.br/flor.html

Aos que se interessarem, uma boa leitura e a todos um grande abraço.

0 comentários: