terça-feira, 2 de outubro de 2007

Lindolf Bell

Semanário


Na segunda-feira trabalho

Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.

Faço promessas de vagar

e de pressas.

Na sexta-feira trabalho.

Descubro um buraco na calça.

Outro buraco na alma.

Liquido a traça.

Na quarta-feira trabalho.

Empilho o tédio em caixas.

Penduro em branco nas ruas,

as faixas.

Na quinta-feira trabalho.

Esqueço um percevejo

no fundo da gaveta

do desejo.

Sábado trabalho.

No fonema, no poema.

No sonho entalado da verdade.

No dilema da felicidade.

No domingo

sento numa praça deserta.

E penso, covarde,

na próxima semana

escrita no livro da liberdade.


Gosto particularmente deste poema de Lindof Bell, porque ele é para mim o "script" da vida de qualquer trabalhador assalariado, sem perspectiva, entediado, submetido.
Há os que já se adaptaram ao sistema e caminham como uma tropa mansa rumo ao matadouro. Aos que conseguem enxergar a situação mas não conseguem se livrar dela, resta o buraco na alma, a consciência de não ser livre, a solidão de nadar contra a corrente.
O Grande artista Iberê Camargo dizia que quem não nada contra a corrente é peixe morto, mas até mesmo a piracema dos que insistem em sobreviver é interrompida pelas "barragens" impostas pelo sistema (sei que é clichê falar em sistema, mas ele está aí), ou dificultada pelas suas "escadinhas" estreitas onde nem todos conseguem subir.
A legião de peixes mortos, já sem consciência, se auto-denomina livre, mas certamente se identifica com o poema acima. Tem medo de perder o que não tem: a liberdade, essa que desde que nascemos dizem que a gente tem, desde que nossos sonhos sejam reprimidos, nossos direitos suprimidos, nossos salários minimizados, nossa individualidade deletada e nosso individualismo glorificado.
Aprendemos a não olhar para o outro e isso é que faz com que não enxerguemos nossas próprias mazelas. Se identificar com o outro gera empatia, solidariedade, união de forças, revolução.
Aprendemos a ver o outro como ameaça, como concorrente, como seres ruins num mundo de poucos "cidadãos de bem como eu" e não nos damos conta que isso que fortalece a nossa própria dominação.
No meio disso tudo, fico com a minha covardia, de segunda a segunda, com minha vontade de viver de música ou de prática esportiva, de vender água de coco na beira da praia ou de simplesmente sentir o calor do sol ao invés de estar na minha masmorrinha diante de um computador. Fui aprisionada na gaiola do salário, esqueci como se voa...
(Adriana Bunn)



1 comentários:

marcos-geo disse...

Por que tu insiste em me deixar triste????