
Para alguns, saber que iam ficar cinco dias em uma barraca-iglu, num lugar quente, com água escassa para banho e higiene em geral, poucos banheiros para tanta gente, acordando cedo e participando de atividades o dia todo depois de quase 30 horas de viagem de ônibus, já seria o suficiente para nem sequer se aventurar.
O fato é que, mesmo nós, seres urbanóides, achando que isso tudo é muito complicado, já de chegada encontramos delegações de trabalhadores vindos dos lugares mais distantes do país, sem dinheiro sequer para comer na viagem, comprando pão e rifando objetos para se alimentar na volta, com crianças pequenas e com muita disposição para participar de todas as atividades.
As dificuldades vividas no acampamento de Brasília, são luxo para os trabalhadores que vivem em acampamento ou até em alguns assentamentos do MST.
Em uma visita aos acampados em Correia Pinto, em 2005, encontramos pessoas que sob um frio castigante, tinham que morar sob barracas de lona preta, tomar banho de rio, banhar suas crianças, cozinhar, enfim, viver por anos a fio em situação precária, lutando por seu tão sonhado pedaço de terra.
Longe de querer comparar qualquer situação vivida por esses trabalhadores, a vivência em Brasília trouxe uma experiência única: como acampados do MST, por cinco dias viramos “sem terras”.
Munidos de câmeras fotográficas, mp3, mp4, celulares e outras tantas quinquilharias, vez por outra precisávamos caminhar até o centro para descarregar arquivos ou carregar baterias e nessas horas que saíamos do acampamento, local onde todos se sentiam iguais, agricultores e universitários, trabalhadores urbanos e rurais, sentimos a reação das pessoas.
Algumas se manifestavam diretamente xingando ou torcendo o nariz para nossa camiseta vermelha com a cara do Che e nossos chinelos de dedo, outras faziam sinal “positivo” com a mão.
A primeira entrada no shopping, nesses trajes, contando que o barro vermelho de Brasília entranha nas unhas e “rachadurinhas” dos calcanhares, foi um choque. Para nós e para os passantes. Você é olhado milimetricamente de cima a baixo, algumas pessoas contornam seu caminho e alguns seguranças de loja já vão se aproximando das portas. Isso que fisicamente eu e o colega de curso e de congresso que me acompanhava, somos “branquelos”. Em qualquer situação você é acompanhado pelo olhar desconfiado das pessoas.
Nos dois primeiros dias, faltou água para o banho, então, um grupo de pessoas resolveu ir tomar banho no passeio público mesmo, um local com parquinhos para as crianças, quiosques, pistas de corrida e três maravilhosos chuveiros.
Após tomar meu banho, confortavelmente sentada no banco da praça, secando os dedos dos pés, vejo um rapaz se aproximar da esposa ou namorada, olhar para mim, segurá-la pelo braço e dizer: vamos embora que o negócio aqui está ficando perigoso, “aquele pessoal está vindo para cá”.
Em compensação, ao sairmos dali, passamos por pessoas que estavam lavando carros em um estacionamento, que pareciam moradores de rua. Viram nossas camisetas, nos chamaram para conversar e dizer que apoiavam a luta do MST, que “a política estava toda errada, o governo muito corrupto”, demonstrando estar muito à vontade conosco, por que eram um de nós, ou nós éramos como eles.
Outros catadores de papelão e latinhas também vieram conversar conosco e encheram nossos bolsos de ingá.
A marcha dos trabalhadores foi outro grande termômetro. Enquanto marchávamos, algumas pessoas em carros de luxo buzinavam e faziam sinal com o polegar virado para baixo, outros buzinavam e cumprimentavam, mas em muitos lugares, trabalhadores de todas as categorias paravam para aplaudir a marcha passando: trabalhadores da construção civil, de hotéis, bares, escritórios, uma pessoa estendeu a bandeira do Brasil na janela quando passamos. Sentimos bastante simpatia pelo movimento. Por paradoxal que seja, o povo aplaude o movimento mas tem medo dos sem-terra.
Uma grande reclamação dos trabalhadores rurais sem terra, mesmo depois de assentados, é a de serem discriminados ou tratados como marginais nas comunidades em que se inserem. Assim foi no assentamento Conquista da Fronteira, em Dionísio Cerqueira, ou nos assentamentos do município de Lebon Régis, que foram objeto de estudo meu e de alguns colegas do curso de Geografia da UDESC.
Aquele que é acolhido em um acampamento ou um assentamento do MST, nunca mais verá o movimento da mesma forma, se pensa o movimento de acordo com o que é exposto na mídia.
Uma boa oportunidade será visitar hoje a assembléia legislativa onde os mesmos estão acampados. Quando vir um acampamento do MST, pare, converse, peça para conhecer e tire suas próprias conclusões.
Em uma outra oportunidade, falarei sobre o que foi discutido no congresso.
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