publicado no Informativo do PETGeo Udesc
número. 5 número 5, Ano 1 – ago/2007
Por Maurício Aurélio dos Santos
Dili, 08.08.2007.
Saudações a todos! Nessas primeiras semanas vivendo num lugar tão distante e tão diferente do Brasil, envio a vocês um pequeno relato deste país tão jovem e tão sofrido, que luta para reconstruir sua vida.
Para chegar ao Timor Leste de avião há duas possibilidades. Por Bali ou por Darwim. A aeronave que faz o trajeto Darwin – Dili é pequena.
Sobrevoando o Timor Leste e já dá para ver que o território é montanhoso, com rios perenes e lagoas cujo nível de água é bastante baixo nesse período do ano. Já Dili, capital do Timor Leste, é plana.
O que mais chama a atenção em Dili é a quantidade de edificações destruídas e queimadas. São casas e prédios queimados e destruídos pelo exército indonésio, quando a Indonésia foi obrigada a sair do país. A guerra civil que se instalou depois também fez estrago. No ano passado, os grupos rivais internos provocaram um conflito que durou dias, onde foram queimados alguns carros, um ônibus escolar e o almoxarifado do MEC. Se não fosse a intervenção dos soldados da força de paz da ONU, todo o prédio do MEC teria sido destruído, pois em algumas portas foi ateado fogo e alguns arquivos foram queimados.
Outro problema bem sério é a completa falta de cuidados com a questão ambiental e com o saneamento básico, mais especificamente. Por toda parte se vê valas onde o esgoto corre a céu aberto e os porcos buscam comida livremente. Os mosquitos estão por todo o lugar e a qualquer hora, embora o horário preferido deles seja ao entardecer. O calor, mesmo no inverno, é insuportável e o sol escaldante.
Logo depois do Palácio do Governo, em direção a Praia da Areia Branca encontra-se muito lixo espalhado pelas ruas. Há um rio, em direção a praia do Cristo, local onde as mulheres lavam roupas e também os porcos se banham e buscam comida. Em função da estação das secas, existe muito lixo no curso ralo do rio. Um outro detalhe é que nele, crianças catam lata, provavelmente para vender.
Ir a praia é a única coisa que os estrangeiros fazem em Dili, já que não há vida noturna. Não tem mesmo. Nem o comércio, nem serviços de transporte, até os táxis não circulam depois das 18h00min ou 19h00min. Nem aulas à noite nas universidades ou nas escolas. Depois desse horário mais ninguém anda nas ruas, que viram terra de ninguém, ou melhor, das gangues, que não são poucas. Cada suco (é assim que eles chamam os bairros aqui, embora todos os sucos sejam muito pequenos) tem sua gangue, quando não tem mais de uma.
A opção então são as praias. As mais pertos do centro de Dili são a da Areia Branca e a Praia do Cristo, também conhecida como Praia dos Portugueses, por ser a preferida deles. O timorense não tem o hábito do banho de mar, pelo menos com o mesmo fim que nós, do litoral brasileiro. Somente as crianças que vendem coisas nas praias entram n’água para se lavar, quando estão muito suadas. Timorense na praia é sempre “descolando” uns dólares em algum tipo de subemprego.
Não existe ônibus, trem etc. O meio de transporte usado pelo timorense é a microlete, uma condução bem pequena, tipo dessas que se encontra no Brasil, usada quase sempre para vender cachorro quente. Eles andam em pé na porta, encima do capô ou socados dentro delas. Os estrangeiros em geral usam táxi que custa um dólar a corrida, pois não é qualquer estrangeiro que eles aceitam que ande nas microletes, pois em geral são pessoas grandes, se comparado ao tamanho médio deles.
Há um bom número de restaurantes no centro de Dili. O mais freqüentado no centro, com preço acessível é um restaurante tailandês chamado Terrace Café, que fica ao lado da Universidade Nacional do Timor Lorosa’e - UNTL. Lá se pode experimentar o tempero tailandês, ou melhor, a pimenta, tailandesa, pois em tudo tem pimenta! A vantagem é que a comida é barata. Você paga um dólar por porção de mistura (é assim que eles chamam o que você mistura ou come junto com o arroz) e o arroz é livre. Um almoço pode sair por 3 dólares com refrigerante. São oferecidos três tipos de arroz. O mais exótico é de um amarelo forte.
Comer na praia tem seu valor. Além da beleza, todos os restaurantes de Dili que ficam na beira da praia (uma meia dúzia) oferecem peixes frescos e crus. Depois do cliente escolher o que quer comer, ele é limpo e preparado. Um almoço para duas ou três pessoas pode sair por 10 dólares. Agora atenção: avise que você NÃO QUER com pimenta, pois mesmo assim ainda virá com um pouco desse condimento. Parece que para eles pimenta é como o sal ou o açúcar na nossa dieta alimentar; ou seja, sempre está presente. Em geral o peixe tem uma carne um pouco mais dura que os peixes que comemos no Brasil e alguns até bem dura mesmo!
Há uma meia dúzia de supermercados no país cujos preços “salgados”. Eles são freqüentados por estrangeiros. É neles que você encontra comidas industrializadas e, sobretudo os enlatados. Cuidado com os enlatados. A sardinha é dura e apimentada, a lata de massa de tomate traz surpresas, como tomates inteiros dentro, com um molho ralo de tomates. A carne enlatada é outra coisa séria pelo tempero. As verduras são encontradas nos supermercados mais muito caras.
Por outro lado às barracas de verduras estão por todo o lado da cidade, sem contar os vendedores ambulantes. O interessante nesse comércio de verduras em barracas ou com ambulantes é a inexistência de balanças para pesar os produtos. Os timorenses que vivem dessa atividade, mais uma entre muitas no mercado de trabalho informal de Dili, arrumam suas mercadorias em montinhos e você paga por montinhos. Um montinho com 6 batatas, custa 1 dólar. Um montinho de chuchu com 5 unidades e um montinho de cenoura, com 7 unidades pode custar cada um 0,50 centavos de dólar.
Há muito que se falar de Timor Leste. Na próxima edição do INFORMATIVO PETGeo, continuarei apresentando para você o mais novo pais do mundo e o mais pobre da Ásia.
A todos os leitores Moromak fo Bensaun, é o que desejo a vocês.
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