terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que senti ao ler este poema

O poeta descobre-se no sebo:  

O poeta, ansioso, silencioso, vaidoso
como sempre,
caminha no centro da cidade.

Em busca de si mesmo, considera o poeta,
em busca de mim
e também do povo
que tanto precisa de mim.

Encontra o sebo:
no mesmo lugar
o sebo de sempre
no mesmo lugar.
O sebo que liquida livros de poesia
como sempre,
como sempre anuncia o cartaz
escrito a pincel atômico
que a luz consome.

Quer dizer: o sebo liquida duplamente
a poesia,
pensa o poeta,
sem revolta
nem meta.

O poeta abre caminho entre os títulos.
Polvo de curiosidade.
Mil dedos
entre mil páginas.
E o poeta,herdeiro dos deuses,
hierático, enigmático como sempre
mas de suor frio na testa,
entre tantos livros empilhados
pilhou-se no flagrante
folheando o próprio livro.

Leu comovido a dedicatória.
O que sobra de um tempo feliz, pensa.
Em íntima dedicatória, amiga, íntegra entrega:
ofereço essas palavras
para que a ponte da amizade
cresça perfeita em nós
seres humanos.

O poeta deixa o sebo
o sente o ruidoso bafo da vida.

E neste instante
começa a escrever
o próprio epitáfio.


(Lindolf Bell)



Este poema foi retirado de um livro que adquiri em um sebo: "O Código das Águas", de Lindolf Bell. Esse livro traz na contracapa uma dedicatória, autografada por Lindolf a uma tal "Marly". A sensação que tive ao lê-lo foi a de ter me tornado um espelho, que aponta para outro. A história dentro da história, ou mais, parece ter sido escrito para o dia em que eu fosse lê-lo. Poético e profético!
Lindolf, os livros de poesia vão parar nos sebos. Mas se isso te consola, onde quer que estejas "poetizando", e certamente num lugar onde não há sebos, eles - os livros de poesia, de lá são resgatados por aspirantes a poetas!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Mortes de motociclistas: “epidemia” e sensacionalismo.

Afinal, de quem é a culpa?

Um jornal de circulação estadual de hoje, 18 de novembro de 2011 traz como manchete a seguinte frase: “Acidentes esgotam hospitais”. E como não poderia deixar de ser, os tais acidentes aos quais o jornal se refere, tratados na matéria como uma epidemia, são apenas aqueles envolvendo motociclistas.
A forma apelativa como esse tema vem sendo tratado chega a ser irritante. Existe sim, uma constatação, existem estatísticas que comprovam que a coisa é realmente alarmante, mas as matérias sempre colocam o motociclista como um irresponsável que escolheu brincar de roleta russa no meio do trânsito e está onerando os cofres públicos.
Raramente se faz uma análise séria e equilibrada do ponto de vista de quem escolheu as duas rodas como forma de garantir seu sustento, de conseguir chegar no horário no trabalho, ou simplesmente de tentar relaxar da agonia do dia-a-dia.
Para começo de conversa, esses mesmíssimos meios de comunicação, são os que frisam nas suas manchetes “Motoqueiro mata”, “Motoqueiro atropela”, “Motoqueiro assalta”. O medo de “motoqueiro” já chegou a tal ponto, que algumas vezes parei de moto na frente de algumas casas, até de gente conhecida, e as pessoas me diziam com toda sinceridade: “desculpe, não reconheci você e fiquei com medo de te atender porque estava de moto”. E olha que meu porte nem é dos maiores.
Para ajudar, sempre tem idiotas sobre duas rodas para sair por aí arrancando retrovisores propositadamente, surgindo do nada, transitando por cima das calçadas, para ajudar a opinião pública a se voltar simplesmente contra TODOS aqueles que andam de moto.
O reflexo disso no trânsito é claro: pode atropelar os motociclistas, afinal é tudo marginal mesmo!
Falo pela percepção de alguém que estudou o código de trânsito, tenta obedecer as leis, adota uma postura defensiva na hora de pilotar e tenta praticar a gentileza em meio a um mar de ignorâncias e agressividade.
Vamos a alguns exemplos: Se estou transitando por uma rodovia duplicada, sempre piloto na faixa mais à direita, mas tenho o direito de ultrapassar alguém que esteja um pouco mais devagar que eu.
Minha intenção é apenas passar o sujeito e voltar para a direita. Pois é só tirar para a esquerda, que surge do nada, a milhão por hora um carro (que não estava no retrovisor quando resolvi ultrapassar, ou seja em velocidade acima do permitido), cola o carro na traseira da moto, fica dando sinal de luz e dando chilique. E olhe que se tiro para ultrapassar, não faço isso a meros 80 por hora, pois não achei minha vida no lixo...
Uma pessoa como essa está disposta a matar ou derrubar o motociclista, pois se este não tiver um mínimo de habilidade, se se assustar, se deixar a velocidade cair um mínimo que seja, está morto. Ainda o obriga a fazer a manobra de retorno em alta velocidade.
Participei semana passada de um encontro, onde ouvi relatos do pessoal que se dirigiu para lá em comboio, dizendo que simplesmente os carros se metiam no meio das motos que viajavam juntas e cada um que se ajeite onde der, ou ficam forçando, empurrando, tocando em cima, porque parece que quem está de moto não tem direito ao seu lugar ao sol, ou à pista. Na hora de dar um passeio com eles, constatei que era a mais pura verdade.
Em muitos dos acidentes que envolvem motociclistas, simplesmente não se para para prestar socorro. A sensação que isso passa é de que para o motorista, atropelar um motociclista ou um cachorro dá no mesmo, como se inclusive o cachorro não fosse digno da prestação de socorro.
“Em cima de uma moto está um marginal”, isso é o que prega o senso comum. Mas em cima de uma moto pode estar o pai ou a mãe de família, o trabalhador, o amigo, alguém que pode fazer muita falta a esse mundo, e também o marginal, que não cabe ao motorista julgar e condenar, e sim à justiça (que não funciona, mas é a ela).
Um amigo meu foi fechado de moto e caiu há algum tempo atrás. Ele me relatou que ao invés de alguém parar para socorre-lo, começaram a gritar das janelas dos carros para tirar a moto do caminho porque estava atrapalhando!
Faz-se urgente uma sensibilização nesse sentido, enxergam-se as máquinas que fecharam, que tomaram as fechadas, mas não se enxerga mais o ser humano responsável pela condução. Pior, não somos mais capazes de compreender que aquele “barbeiro idiota”, pode até ser um bom condutor num mau dia ou num mau momento...
Não quero com meu texto isentar de toda a culpa os motociclistas e jogar a culpa para cima dos motoristas, meu olhar vai além da intenção de ficar apontando culpados no trânsito.
O que parece que ninguém quer enxergar é que, se algo tem que ser feito com relação à epidemia de mortes de motociclistas, não é sensacionalismo barato e sim uma campanha de conscientização de motociclistas e motoristas, além de pedestres, ciclistas, etc.
O governo, ao invés de apenas criar leis que beneficiam as auto-escolas na arrecadação de dinheiro sem ensinar um mínimo de educação no trânsito, sem mencionar que as aulas práticas de moto são uma piada (sem graça, diga-se de passagem), deveria promover cursos e palestras de educação no trânsito, de direção e pilotagem defensiva e temas do gênero.
Cito como exemplo a CET de São Paulo que promove cursos presenciais e à distância, sendo que esta segunda modalidade, mesmo estando em outro Estado tive a oportunidade de fazer e receber certificado.
Outra coisa, infelizmente não estamos no Tibete, não somos um país de monges e por mais que sejamos capazes de ser educados e pacientes, a infra-estrutura de trânsito de algumas cidades é capaz de levar o Dalai Lama às raias da loucura.
Obras são inevitáveis, mas a corrupção e a burocracia transformam as mesmas em intermináveis. Quando chegam a ficar prontas já estão desgastadas e obsoletas.
Florianópolis tem uma gama de alternativas para transporte e apresenta um projetinho bilionário de colocar mais uma ponte, num território que tem limitação geográfica, que não tem para onde socar mais gente e carro, para, como se diz, apenas mudar a fila de lugar.
Não por menos que, certa feita estando em uma dessas filas que nunca andam, deixei uma pessoa entrar na minha frente em um entroncamento, estando de moto, e a pessoa que estava atrás de mim teve tamanho ataque de fúria que achei que seria atropelada, mas fui xingada de tudo o que se possa imaginar. E a fila simplesmente não andava! Sai todo mundo louco, se xingando, se atropelando, se matando, e claro, quem leva a pior? Quem está mais exposto – o motociclista.
As leis de trânsito são outra brincadeira. Cada vez mais se enrijece a lei, mas nunca se as faz cumprir. Antes eram tantos mg de álcool para poder dirigir, agora nenhum, mas de que adianta, se bêbados continuam matando e saindo impunes e com permissão para dirigir? E, sinceramente, sei que isso é tema para outro texto, mas cadeia onde tem traficante, assassino, estuprador e por aí vai, não é lugar para criminoso de trânsito. Não defendo penas brandas, mas rígidas porém alternativas e direcionadas, além da proibição temporária ou mesmo definitiva dependendo do caso do direito de dirigir.
Para não me estender em mais delongas, vejo a chacina do trânsito, com seus carros e suas motos, como uma mistura de péssima infra-estrutura de trânsito com falta de educação em todos os sentidos dos condutores, condições adversas de condução devido ao estresse, imperícia, falta de uma cultura de manutenção preventiva dos veículos (anda-se até quebrar), além de outros fatores.
Enquanto a mídia sensacionalista reduz a chacina do trânsito às facilidades de financiamento e à culpa dos motociclistas, que “quando não morrem comem o dinheiro público da saúde”, e as pessoas acreditam piamente nessa balela e os governantes continuam sentados em suas cadeiras, rindo da nossa desgraça.
Precisamos parar de ficar protestando um contra o outro nas estradas e unirmos os protestos em direção aos verdadeiros culpados de tantos desastres.


Adriana Bunn, 18/11/2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Caí do mundo e não sei voltar

Eduardo Galeano

O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…
Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.
E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!
Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.
Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.
O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os aparelhos de som uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.
Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez. Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!
É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.
E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que havia em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.
Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.
Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?
Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.
Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de … anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava..
Desse tempo venho eu.  E não que tenha sido melhor…. É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com “guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa”, mudar para o “compre e jogue fora que já vem um novo modelo”.
Troca-se de carro a cada três anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado… E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas… por amor de Deus!
Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.
E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.
Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (porque éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.
Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular há poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?
Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos…
Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê?  Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.
Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette até partidas ao meio se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.
E as pilhas! As pilhas dos primeiros rádios Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.
Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.
Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia “esta é um 4 de copas”.
As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.
Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem matá-los tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!
E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.
E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!
Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.
Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.
Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.
Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.
Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à bruxa, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a bruxa me ganhe a mão e seja eu o entregue…
Eduardo Galeano é jornalista e escritor uruguaio

quarta-feira, 8 de junho de 2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Primavera Árabe: À frente de todo homem há uma mulher

19/5/2011

As mulheres árabes assumiram claros papéis de liderança nos levantes populares do Bahrein, Egito, Líbia, Marrocos, Tunísia e Iêmen, contrariamente ao velho mito ocidental de que se encontram indefesas e escravizadas. “É realmente injusto ignorar a história e tentar interpretar mal a realidade”, disse à IPS, Fatima Outaleb, fundadora da União para a Ação das Mulheres no Marrocos. “Quem pode negar a essa mulher que entoe palavras de protesto e leve os homens atrás de si? É uma mulher com um véu, mas também é uma líder”, afirmou.

Segundo Outaleb, as mulheres – sejam mães ou donas de casa, usem ou não o véu, simpatizantes de partidos islâmicos ou sem filiação política – sempre tiveram um papel importante no mundo árabe. “A mídia ocidental se guia por certas agendas e prioridades que tem em mente. Ignora a realidade de que as mulheres árabes foram o coração das revoluções na região, seja liderando, elaborando estratégias, criando consciência ou mobilizando por meio de blogs ou do Facebook”, disse Outaleb.

As mulheres egípcias representaram quase 20% dos milhões de ativistas que lotaram a Praça Tahrir no Cairo e na cidade de Alexandria, ao Norte. “Não gosto do fato de, durante nossa revolta de 18 dias, a cobertura da mídia internacional se concentrar nas mulheres assediadas sexualmente. Havia mulheres entre os mártires, enfrentando as forças de segurança e dormindo na Praça Tahrir”, disse à IPS Doaa Abdelaal, da organização Mulheres que Vivem sob Leis Muçulmanas. “As mulheres trabalharam muito tempo em nível de base e nos movimentos de trabalhadores para criar este momento”, afirmou.

Desde 2004, trabalhadores egípcios realizaram quase três mil greves contra a privatização e as políticas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. As mulheres desempenharam importantes papéis nessas ações, exigindo melhores condições econômicas e opondo-se ao regime do ex-presidente Hosni Mubarak. Em um país onde 95% dos 27 incidentes de violação que ocorrem diariamente não são registrados, onde 33% das mulheres sofrem violência física e onde há desigualdades profissionais e crescente violação sexual, os grupos feministas se destacam por dedicar tempo e energia nos últimos 20 anos a quebrar muitos tabus.

Fundadora e chefe-executiva da coalizão árabe contra a violência de gênero Karama, a somaliana Hibaaq Osman, disse que os meios de comunicação ocidentais estavam assombrados por verem mulheres nas ruas protestando lado a lado com os homens. “É preciso entender a psicologia da mídia ocidental. Querem ver uma mulher frágil, submissa e burra”, disse à IPS.

Osman afirmou que a Europa, que segundo ela inclina-se cada vez mais para a direita política, deveria compreender que suas comunidades muçulmanas, na realidade, não refletem o mundo árabe, já que os imigrantes estão desligados socialmente de suas terras de origem e não foram plenamente acolhidos nos países onde vivem. “Na França, demorou apenas um dia para ser aprovada uma lei contra o véu, mas quanto vai demorar para ser apresentada uma lei para apoiar, capacitar, dar emprego e fortalecer economicamente os imigrantes que vivem no país?”, perguntou.

“Creio que é hora de o Ocidente olhar bem para si mesmo, pois é fácil apontar com o dedo para o mundo muçulmano, e ver como as mulheres são tratadas quando a Igreja Católica ainda tem grandes problemas com os anticoncepcionais e não pode decidir se uma mulher tem direito de usar seu próprio corpo”, disse Osman. “Não nos preocupa o que a mídia ocidental pense sobre nós, pois sabemos que é tendenciosa. Como podem ignorar o papel das mulheres! Elas nunca estiveram ausentes, fazem parte da sociedade”, ressaltou.

(Fonte: Simba Russeau - IPS)


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Transporte Público é a Solução. Mas Cansei de Esperar por Ela.


O trânsito da grande Florianópolis chegou a níveis insuportáveis. O acesso à ilha então, nem se fala: quem precisa se deslocar para Florianópolis de manhã cedo, invariavelmente tem que penar em alguma fila.
Pensando nesse problema, vão começando a surgir propostas mirabolantes de solução. Uma terceira ponte, um túnel, uma mega obra aqui, outra ali, e o público “carrófilo” saltitando de alegria e sonhando com o dia da inauguração das mesmas para se livrar desse sufoco.
Parece que tanto as autoridades quanto os entusiastas dessas idéias ignoram ou desconsideram um fato de extrema importância: o fato de Florianópolis estar localizada em uma ilha. Uma ilha rodeada não só de água, mas de um continente próximo em fase de expansão urbana sendo ocupado por pessoas de significativo poder aquisitivo, e que como todo bom brasileiro “adora carro”.
Se o crescimento urbano e populacional continuar no mesmo patamar, em pouco tempo não haverá ponte ou túnel que dê jeito nessa situação e tudo voltará à estaca zero.
Mas porque será que o bom brasileiro que mora em Florianópolis e entorno adora carro? Será que é só ostentação, gosto de dirigir, liberdade de escolha ou teria um “algo mais” por detrás dessa questão?
É incontestável que existe (ou melhor, não existe) o fator educação por detrás da situação. O individualismo impera e a lei de Gerson nunca foi tão obedecida à risca, logo, a solução para o problema é: cada ser maior de dezoito anos que habita um lar ter seu próprio carro.
O outro lado da moeda, porém, é que mesmo aqueles que tem consciência do problema e querem colaborar fazendo sua parte são penalizados com um sistema de transporte coletivo ruim e caro.
Os horários de ônibus até que são razoáveis, mas não são dimensionados, não dão conta da demanda em horários de pico. No bairro Kobrasol onde moro, por exemplo, o transporte “executivo” é uma piada.
O ônibus, que oferece itinerário diferenciado, passando por ruas do centro e beneficiando quem tem que se deslocar para esses pontos, simplesmente passa lotado e não para. Por quê? Porque passa primeiramente dentro de Campinas, enche, e depois quando passa pelo Kobrasol não tem capacidade para mais ninguém.
Em vez de ficar só xingando como todos fazem no ponto de ônibus, cansei de enviar e-mails para a empresa, falando e questionando o porquê  não só de o executivo não parar, como também do fato que ele vive quebrando. Pode? Um ônibus dito executivo em péssimo estado de conservação? Pode! Até hoje nada mudou.
Resta pegar o ônibus convencional, lotado, apinhado, que fica parado na fila e ficar em pé quase uma hora para realizar um trajeto de menos de dez minutos.
Isso que moro no Kobrasol e trabalho no centro. E quem tem que ir mais longe e depende da tal “integração”? Olhe, eu passo trabalho, mas desses eu tenho pena.
Até hoje privilegiei o transporte público por questões ecológicas, sociais e tudo mais, mas cansei. Vou tirar mais uma moto da garagem porque a coisa ficou insustentável. Acordo cedo para pegar o executivo que passa lotado, e acabo perdendo preciosos (e não poucos) minutos esperando por um outro ônibus que me chega lotado e vai ficar invariavelmente parado na fila e mais uma vez vou me atrasar para o trabalho.
Sim, eu dou preferência para o transporte público sempre que posso, mas quero ser tratada com respeito, quero um mínimo de conforto sim, afinal pago caro pelo serviço, pago uma das tarifas mais caras do país.
Eu, motociclista, “bola-de-fogo, imprudente, inconseqüente, vida loka” ou o que mais me queiram rotular, prefiro encarar os motoristas que acham que as vias são só deles e dia após dia jogam seus carros para cima da gente para depois nos por a culpa, estou preferindo arriscar a virar estatística a ter que viajar como gado confinado e maltratado dentro de latões apertados e lentos.
Acho necessárias as campanhas de conscientização para os motociclistas, mas cadê as campanhas de conscientização dos motoristas em relação aos motociclistas? Apesar de pilotar devagar e dentro das normas, cansei de sofrer verdadeiras “tentativas de homicídio” no trânsito. O motorista vê, mas não se importa, afinal é só uma moto mesmo, é um motociclista a menos para incomodar...
Sabem quando vai terminar essa guerra e essas filas? Quando tivermos oferta de transporte coletivo decente, quando formos solidários e aprendermos que se dermos carona para três que usam carro, são três carros a menos na fila, quando esse transporte for bom o suficiente para fecharmos o centro para os carros e ali só circularem microônibus a preços acessíveis (ou quem dera, gratuitos).
Isso é mais barato que construir novas pontes e duplicar novas vias, que logo estarão novamente entupidas. E economiza vidas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

É JUSTO FICAR BELO À CUSTA DO SOFRIMENTO ALHEIO? CUIDADO COM O QUE VOCÊ ANDA VESTINDO...

Pernambucanas é multada pela exploração de trabalho escravo
5/4/2011

Dias atrás a revista The Economist publicou reportagem de capa desancando a legislação trabalhista brasileira, refletindo os interesses do patronato, nacional e estrangeiro, que não se cansa de bradar contra a CLT e pedir a supressão ou flexibilização dos direitos sociais em nome da redução do chamado custo Brasil.

A matéria do Repórter Brasil, reproduzida abaixo, indica que a ausência da lei pode abrir caminho à institucionalização do trabalho escravo.

Grupo de imigrantes sul-americanos submetidos a condições análogas à escravidão foi flagrado costurando blusas da coleção Outono-Inverno da Argonaut, marca jovem da centenária rede varejista Pernambucanas, que se esconde atrás de intermediários, usando o subterfúgio da terceirização e quarteirização da produção. É a lógica capitalista de maximização dos lucros, que só encontra barreira na luta da classe trabalhadora e na legislação social, que nasce desta luta.

A casa branca, localizada em uma rua tranquila da Zona Norte da capital paulista, não levantava suspeita. Dentro dela, no entanto, 16 pessoas vindas da Bolívia viviam e eram explorados em condições de escravidão contemporânea na fabricação de roupas.

O grupo costurava blusas da coleção Outono-Inverno da Argonaut, marca jovem da tradicional Pernambucanas, no momento em que auditores fiscais da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE-SP) chegaram ao local.

Entre as vítimas, dois irmãos com 16 e 17 anos de idade e uma mulher com deficiência cognitiva. No local, a fiscalização constatou a degradação do ambiente, jornada exaustiva de trabalho e servidão por dívida, três traços que caracterizam o trabalho análogo ao de escravo - crime previsto no artigo 149 do Código Penal. As vítimas trabalham mais de 60 horas semanais para receber, em média, salário de R$ 400 mensais.

Descobriu-se que a encomenda das peças havia sido feita pela intermediária Dorbyn Fashion Ltda. - um entre os mais de 500 fornecedores da centenária rede de lojas. O flagrante, registrado em 14 de março, motivou o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) a cobrar cerca de R$ 2,3 milhões da Pernambucanas, soma dos valores referentes a autuações com a notificação para recolhimento do Fundo de Garantia pelo Tempo de Serviço (FGTS).

A Repórter Brasil acompanhou a operação comandada pela SRTE-SP. O cenário encontrado de condições degradantes apresentava diversos riscos à saúde e segurança das vítimas. Não há janelas ou qualquer tipo de ventilação no espaço apertado e quente. A insalubridade, a precariedade e o improviso marcavam tanto os ambientes de trabalho quanto os de descanso.

Alimentos eram armazenados de forma irregular: além da bandeja de iogurte dentro da gaveta, a inspeção se deparou com carnes estragadas. A sofrível estrutura não permitia nem banhos com água quente.

As jornadas de trabalho eram exaustivas, sem pagamento de horas extras. Os "salários" não alcançavam o salário mínimo e muito menos o piso da categoria. Também foram recolhidas anotações referentes a descontos irregulares, artifício comum dentro do esquema de servidão por dívida. As passagens de ônibus para o Brasil eram "pagas" com trabalho intenso de costura.

Na chegada da equipe de fiscalização, os trabalhadores deixaram transparecer a apreensão. "Medo de ter que ir embora sem nada", disse um deles. Um costureiro interrompe o depoimento do outro e poucos falam abertamente sobre as condições em que vivem. Mesmo assim, Joana relatou que "quanto mais rápido se trabalha, mais se pode ganhar".

Ela e seus companheiros de trabalho não tinham, contudo, acesso ao controle de sua produção e nem quanto receberia por peça. As jovens nunca viram as roupas que produzem na loja e nunca compraram nada nas lojas Pernambucanas.

A primeira pergunta que Joana fez às autoridades presentes veio de chofre: "Eu posso estudar?" A jovem sempre alimentou o sonho de cursar - em sentido inverso percorrido por muitos brasileiros que estudam na Bolívia para se tornar médicos - uma faculdade de Medicina no Brasil.

Ela contou já ter feito o curso preparatório em seu país. A jovem chegara a São Paulo (SP) apenas um mês antes do flagrante. Um táxi teria sido encarregado de trazê-la da rodoviária diretamente até a discreta oficina. Na cidade de El Alto, vizinha à capital La Paz, Joana consertava telefones celulares.

A investigação que chegou até o local começou em agosto do ano passado, quando outra oficina que empregava imigrantes sem documentos e em condições degradantes foi flagrada costurando vestidos Vanguard, marca feminina adulta da Pernambucanas - a Repórter Brasil também acompanhou esta ação e publicará, em breve, outra reportagem com mais detalhes da operação passada.

A partir de então, auditores e auditoras da SRTE/SP decidiram aprofundar as investigações para verificar a eventual repetição das ocorrências constatadas na confecção das peças da Vanguard em outras oficinas irregulares e para coletar subsídios adicionais para embasar as conclusões oficiais.

A fiscalização teve acesso ao pedido de compra do lote (2.748 peças) do "casaco longo moletom - tema Romance Gótico", da Argonaut, que os libertados costuravam no momento da ação. As Pernambucanas pagariam R$ 33,50 por peça à Dorbyn e venderia a mesma por R$ 79,90. O valor pago pela Dorbyn por cada blusa à oficina de costura era de R$ 4,30.

Riscos
Em dois cômodos pequenos, pelo menos oito máquinas estavam sendo utilizadas. Uma das paredes apresentava rachaduras. No teto, a cobertura de plástico estava cedendo. A única janela dava acesso a um dos quartos e estava fechada, com uma costureira trabalhando de costas. Esse ambiente era frequentado por três crianças.

Os auditores da área de Saúde e Segurança do Trabalho interditaram a oficina porque havia grave e iminente risco à vida dos trabalhadores. A lista de problemas começava com as instalações elétricas irregulares, com toda a fiação exposta.

"Nós verificamos o uso excessivo de benjamins - prática que não é permitida porque causa uma sobretensão muito grande. E o risco de curto e, consequentemente, de incêndios era alto", explicou Rodrigo Vieira Vaz.

Não havia extintor de incêndio ou rota de fugas no local. Os tecidos, que são materiais inflamáveis, ficam espalhados pelo chão da oficina, dificultando até a circulação das pessoas.

A iluminação do ambiente era imprópria e, segundo avaliação dos técnicos, poderia acarretar em problemas na visão dos costureiros e costureiras. A Norma Regulamentadora 17 (NR-17) prevê iluminação especifica para este tipo de trabalho.

As cadeiras utilizadas não tinham nenhuma regulagem: eram bancos sem encostos. Até mesmo uma caixa de papelão servia para assento de um dos trabalhadores. O uso de cadeiras inadequadas pode acarretar problemas na coluna ou músculo-esquelético.

A exposição a lesões e acidentes era latente. As correias das máquinas não tinham proteção alguma. "A correia pega velocidade com o acionamento das máquinas e pode até decepar um dedo", exemplifica Teresinha Aparecida Dias Ramos, médica e auditora fiscal que fez parte da equipe de operação. Para ela, a probabilidade de proliferação de doenças era muito grande por conta da falta de higiene e de ventilação.

A fiscalização encontrou alimentos vencidos na geladeira da oficina. A cozinha era suja e minúscula. Não havia mesas ou cadeiras para que os empregados pudessem fazer as refeições com um mínimo de conforto.

As instalações sanitárias também eram sujas e insuficientes para a quantidade de costureiros e costureiras. Os banheiros exalavam odor forte e asqueroso. O único chuveiro elétrico estava desligado por causa da sobrecarga de energia elétrica da oficina, com fiações cortadas, o que forçava os imigrantes a encarar o temido banho de água fria. O empregador não fornecia roupas de cama e toalhas de banho.

A limpeza dos dormitórios, das instalações sanitárias e demais dependências era feita pelos próprios trabalhadores, conforme escala fixada na porta de um dos banheiros. Os alojamentos eram dois dormitórios divididos por guarda-roupas de modo a criar quatro espaços diferentes, que eram divididos entre todos os trabalhadores, inclusive os casais com filhos. Eram três casais, sendo um com dois filhos e os outros com uma filha cada.

Intermediária
Durante a fiscalização, dois funcionários da Dorbyn - Rogério Luís Rodrigues de Freitas, gerente administrativo, e Maria Xavier dos Santos, encarregada de acabamento das peças produzidas - foram até a oficina para verificar como estava a produção dos bolivianos.

De acordo com levantamento da fiscalização, outras 16 oficinas informais produziram peças para a Dorbyn entre janeiro de 2010 e fevereiro de 2011. Apenas a oficina da Zona Norte flagrada com trabalho escravo produziu 49,8 mil peças ao longo do período. Na prática, portanto, foi o ponto de costura que mais forneceu para a Dorbyn durante o intervalo pesquisado.

O boliviano que se apresentou como dono da oficina vistoriada disse ter conhecido a Dorbyn, no mercado desde 1979, por meio de folhetos distribuídos na Praça Kantuta - ponto de encontro de imigrantes bolivianos no centro da metrópole. Ele foi até o bairro do Brás, onde fica a sede da intermediária, e se acertou com o gerente Rogério. Passou, então, a abastecer a empresa em 2009. Segundo depoimentos, a pequena oficina costura com exclusividade para a Dorbyn pelo menos desde outubro de 2010.

À Repórter Brasil, Fábio Khouri, um dos sócios da Dorbyn, declarou que o número de oficinas subcontratadas varia de acordo com a época. O empresário não quis informar quantos funcionários a Dorbyn mantém registrados nem quantas encomendas que recebem se referem diretamente a Pernambucanas. Disse ainda que o fornecimento da oficina fiscalizada não era contínuo e que o mesmo dependia da disponibilidade do oficinista.

"Assim que ele [dono da oficina] regularizar a situação, abrir firma e registrar os funcionários, a Dorbyn continuará a ´mandar´ serviço, dependendo da necessidade", completou. Segundo Fábio, a Dorbyn "de forma alguma" conhecia a situação dos trabalhadores. "Havia alguma semanas que não íamos lá", colocou, sem antes reiterar que costuma auditar os parceiros que contrata para verificar em que condições as peças estão sendo produzidas.

Responsabilização
Na avaliação dos integrantes da SRTE-SP, a responsabilidade trabalhista é da Pernambucanas. Foram lavrados 41 autos contra a empresa - cada auto se refere a uma irregularidade constatada.

Segundo Luís Alexandre Faria, que coordenou a operação, a Pernambucanas não pode alegar que apenas vende - e não produz - peças de vestuário."Os atos diretivos e empresariais são da Pernambucanas. É a empresa que determina a tendência, faz o controle de qualidade de cada peça, estipula o preço e o prazo que as peças devem ser entregues", acrescentou. Por causa desse papel determinante na produção, foi possível identificar a subordinação reticular dos outros envolvidos frente a Pernambucanas.

A produção pulverizada das peças dos grandes magazines propicia agilidade na entrega e transfere os custos empresariais e trabalhistas para a ponta da cadeia produtiva. "Há uma demanda de consumo muito grande que deu espaço ao chamado fast fashion", complementou Luís. O que ocorre é uma espécie de concorrência ao revés - se uma determinada oficina não aceita produzir peças a um determinado valor, outra certamente aceitará.

Após a inspeção na referida oficina de costura, a equipe da SRTE-SP também realizou auditoria contábil e in loco na sede da empresa Arthur Lundgren Tecidos S.A - Casas Pernambucanas. A partir desse trabalho, foi mapeada a cadeia produtiva das peças comercializadas pela rede - desde fornecedoras diretas , passando por confecções e chegando até as oficinas de costura quarteirizadas, inclusive com a discriminação de onde se localizam.

O resultado da primeira etapa de investigações demonstra, segundo a auditoria, que o processo de produção (costura) das roupas das Pernambucanas ocorre com total precarização das condições contratuais dos trabalhadores e dos ambientes de trabalho, resultando no desrespeito aos mais básicos e elementares direitos dos trabalhadores.

O flagrante na oficina da vez não deve ser entendido como caso isolado, como advertem os membros da SRTE-SP. Na visão apresentada por eles, as empresas interpostas, chamadas pela Pernambucanas de fornecedoras, funcionam, na realidade, como verdadeiras células de produção da empresa, todas interligadas em rede por contratos simulando prestação de serviço, mas que, na realidade, encobertam "nítida relação de emprego entre todos os obreiros das empresas interpostas e a empresa autuada".

Em reunião com os auditores, Eduardo Tosta de Sá Humberg, gerente da Pernambucanas, afirmou não reconhecer a responsabilidade da empresa pelos trabalhadores encontrados em situação degradante, "tendo em vista que a empresa tão-somente faria a compra de peças de vestuário de seus fornecedores". Antes de selecionar um fornecedor, a empresa alega que faz uma criteriosa análise da capacidade produtiva.

Entretanto, nenhum costureiro aparece admitido no livro de registros da Dorbyn, apreendido para averiguação. Há apenas um encarregado, um ajudante geral, um assistente financeiro, um auxiliar de limpeza, um auxiliar de manutenção, dois balconistas e um encarregado de expedição.

"A Dorbyn nada agrega ao processo produtivo das peças comercializadas e encomendadas pela Pernambucanas", conforme o relatório da fiscalização. A empresa não possui nem trabalhadores da área de criação, nem costureiros, já que toda a produção é "quarteirizada" para oficinas de costura. Na avaliação da SRTE-SP, a Dorbyn não possui capacidade produtiva para a produção das peças encomendadas pela Pernambucanas.

Entre abril e junho de 2010, a Dorbyn vendeu 4,9 mil peças para diversos compradores, enquanto que para a Pernambucanas as vendas foram de quase 50 mil peças no total (gráfico acima). "Isso mostra a dependência da Dorbyn em relação a Pernambucanas", explicou Luís Alexandre.

De acordo com a auditoria, a intermediária confeccionou 141,5 mil peças de vestuário, de janeiro de 2010 a fevereiro deste ano, que foram vendidas para as lojas Pernambucanas. O "fornecimento" não exigiu a contratação formal de nenhuma costureira ou costureiro em uma atividade econômica que, aliás, é conhecida pela intensiva utilização de mão de obra.

O relatório final problematiza a questão. "Esta forma de superexploração da força de trabalho, negando aos trabalhadores direitos laborais e previdenciários mínimos, dá-se com intuito de maximizar os lucros, atingindo uma redução do preço dos produtos, caracterizando uma vantagem indevida no mercado e levando à concorrência desleal".

Após a fiscalização, os libertados receberam a guia para sacar três parcelas do Seguro Desemprego para o Trabalhador Resgatado e a Carteira de Trabalho e da Previdência Social (CTPS) provisória, válida por 90 dias.

As vítimas receberam entre R$ 1,5 mil e R$ 6 mil de verbas rescisórias. Os valores foram pagos pela Dorbyn, totalizando R$ 44,8 mil. O total calculado pelos contadores da Pernambucanas e auditores da SRTE-SP, porém, era de R$ 173 mil. "A Dorbyn se recusou a pagar saldos de salários e outras remunerações anteriores", explica a auditora Giuliana Cassiano.

O relatório será encaminhado à Secretária de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE para que seja aberto procedimento administrativo que poderá culminar com a inclusão da Pernambucanas na "lista suja" do trabalho escravo.

O magazine, que completou 100 anos em 2008, recebeu todos os autos de infração e uma notificação do MTE na última quinta-feira (31) para adotar imediatamente providências como: sanar todas as irregularidades relatadas nos autos; promover a imediata anotação dos contratos de Trabalho nas CTPS dos trabalhadores - para isso, o MTE deve tornar sem efeito as anotações já realizadas pela Dorbyn; realizar o pagamento de todas as verbas de natureza trabalhista não quitadas com os trabalhadores até o momento - inclusive salários, horas extras, entre outros; garantir alojamento decente em imóveis apropriados, com um trabalhador por quarto e uma família por imóvel; e garantir o retorno daqueles que desejarem voltar à Bolívia.

A Pernambucanas não respondeu às questões enviadas pela reportagem sobre o caso. A empresa se limitou a dizer que enviou nota em que se vale de ata da audiência realizada no último dia 15 de março, acompanhada pela Repórter Brasil, na qual afirmou - por meio de seu advogado - não estar "reconhecendo qualquer responsabilidade pelas ocorrências relatadas e que não mantém relação alguma com a oficina implicada".

O magazine - que possui 16 mil funcionários próprios, alocados em 610 filiais espalhadas pelo país - ressaltou que segue "política de responsabilidade social que inclui o compromisso de todos os fornecedores com o respeito à legislação trabalhista e aos direitos do trabalhador".

Informou ainda que uma cláusula no contrato de compra de mercadorias em que determina que o fornecedor "não poderá se envolver com, ou apoiar, a utilização de trabalho infantil, trabalho forçado ou quaisquer outras formas de exploração ilícita de mão de obra ou, ainda, outras atividades que, de maneira direta ou indireta, atinjam os princípios básicos da dignidade humana".

Tráfico
Foram apreendidos ainda sete cadernos com anotações de dívidas dos empregados com o dono da oficina. Há desde marcações referentes à compra de shampoo até o desconto do custo da passagem da Bolívia ao Brasil. Uma das vítimas chegou a receber R$ 238 por um mês inteiro de trabalho. Um dos cadernos também mostra outro tipo de redução no salário em virtude de peças com defeitos devolvidas pela empresa.

Muitos elementos indicam que os trabalhadores foram vítimas de tráfico de pessoas. Para Juliano Lobão, do Comitê Interinstitucional de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, diversos fatores permitem tal apontamento. Entre eles, a recepção e a hospedagem dos trabalhadores pelo dono da oficina.

"Isso por si só já caracteriza o crime de tráfico de pessoas, conforme definição do Protocolo de Palermo, ratificada pelo Decreto Nacional nº 5.948, de 26 de Outubro de 2006, que institui a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas".

Além disso, foram encontrados documentos pessoais com descontos de valores ligados à hospedagem, à alimentação e a outros gastos. "Isso reforça ainda mais a exploração a qual os trabalhadores estavam submetidos. Não podemos ainda ignorar as péssimas condições encontradas no local de trabalho, e as condições de higiene igualmente ruins do local como um todo", detalha Juliano, que acompanhou a ação. A SRTE-SP encaminhará os cadernos à Polícia Federal (PF) para apuração dos indícios.

Paralelamente, a Defensoria Pública da União (DPU) está encaminhando pedido de regularização migratória das vítimas com base na Resolução Normativa 93, de 21/12/2010, do Conselho Nacional de Imigração (CNIg). A resolução prevê permanência provisória no país, pelo prazo de um ano, de estrangeiros submetidos ao tráfico de pessoas.

"Quem decide sobre o pedido é o Ministério da Justiça. O Comitê Interinstitucional de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Estado de São Paulo, que reúne várias instituições públicas com atuação no caso, também será acionado para os devidos encaminhamentos, a depender das demandas individuais de cada uma das vítimas", relata a defensora Fabiana Galera Severo, que está cuidando do caso.

A equipe de fiscalização foi composta pelo Comitê Interestadual de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (ligado à Secretaria Estadual de Justiça de São Paulo), pela Comissão Municipal de Direitos Humanos, MTE, PF e Ministério Público do Trabalho (MPT). Contudo, os dois últimos órgãos abandonaram a ação quando ela ainda estava em curso.

De acordo com a assessoria de imprensa da Superintendência Regional da PF em São Paulo, os três agentes que participaram da ação tinham a função "única e exclusiva" de dar apoio e fazer a proteção policial.

Diante do questionamento da reportagem sobre a motivação para o abandono da ação em andamento, o assessor de imprensa do órgão se limitou a dizer que as investigações sobre o caso ainda estão internamente em andamento e a posição será apresentada assim que houver algo mais conclusivo.

O MPT também informou, por meio da assessoria de imprensa, que a investigação e procedimentos administrativos ainda estão em curso e somente após a conclusão é que o órgão se pronunciaria.

(Fonte: Repórter Brasil)
( extraído do link: http://www.sintrafesc.org.br/noticias_din.php?id=27221 )